Foi-se o tempo em que ficção científica era exclusividade dos Estados Unidos, seja na literatura ou cinema. Não estou dizendo que o Brasil tenha cacife para criar um Star Wars ou um Final Fantasy, considerando que um projeto desse porte não se faz do dia para a noite com alguns trocados. É preciso investir, e muito, coisa que cineastas brasileiros (os de maior poder financeiro, pelo menos) não estão dispostos a fazer, preferindo apostar em bandidagem carioca, biografias polêmicas ou, no máximo, comédias românticas.
Nem é sensato comparar Star Wars com, por exemplo, Se Eu Fosse Você. Não falo sobre comparação, mas sobre evolução. Evolução de ideias. Arriscar-se em um terreno tão pouco aproveitado no Brasil. Um terreno que pode agradar com facilidade se bem desenvolvido. E esse pode ser outro problema, produzir da maneira correta. Ficção científica não é só história. Os efeitos ditam bastante se a receptividade será positiva ou não. Assim, voltamos ao ponto inicial e tão importante quanto a imaginação: dinheiro. Se as grandes produtoras têm verba para produzir algo próximo das guerras estelares, não o querem. Por outro lado, há brasileiros interessados em criar sua própria versão de ficção científica, porém não têm as verdinhas. O que fazer nesse caso? Escrever um livro.
Há algum tempo, prateleiras de livrarias como Cultura, Saraiva, Martins Fontes, entre outras, exibem títulos nacionais, além dos clássicos de Machado de Assis, Monteiro Lobato e Paulo Coelho. Falo sobre ficção nacional. É, ela existe e já passou da fase dos primeiros passos. Se você nunca ouviu falar sobre Andre Vianco, Raphael Draccon, Eduardo Spohr, Eric Novello ou Giulia Moon, termine de ler essa matéria e corra até a livraria mais próxima, sessão de ficção. As editoras deixaram o preconceito de lado e aceitaram que o que vende hoje em dia é literatura fantástica. Vamos tomar como exemplo a saga Crepúsculo, de Stephenie Meyer. Se por um lado dizem não haver profundidade na história da humana apaixonada pelo vampiro vegetariano, por outro a mesma história incentivou muitos adolescentes a tomarem gosto pela leitura. De Crepúsculo, muitos passaram para Harry Potter, outro grande marco da literatura fantástica, Crônicas de Nárnia, e evoluíram para Crônicas Vampirescas (Anne Rice), livros de Stephen King e O Senhor dos Anéis.
Essa expansão do gênero ajudou na aceitação de textos não convencionais para publicação profissional, permitindo conhecermos histórias tão incríveis que, se não nos atentarmos ao nome ou biografia do autor, podem passar por trabalhos estrangeiros. Várias, inclusive, conseguem ser melhores do que diversos gringos.
Considerado o pai da ficção científica brasileira, o fluminense Jorge Luiz Calife foi o precursor do gênero por aqui. Começou escrevendo contos para revistas como EleEla, Playboy e Isaac Asimov Magazine. Seus contos apareceram também na França e em Portugal. Alguns dos contos de Calife estão reunidos em As Sereias do Espaço (2001). Jornalista e divulgador científico, também publicou Espaçonaves Tripuladas (com Cláudio Oliveira Egalon e Reginaldo Miranda Júnior, 2000) e Como os Astronautas Vão ao Banheiro? E Outras Questões Perdidas no Espaço (2003).
Descrito por M. Elizabeth Ginway, a maior autoridade mundial na ficção científica e fantasia do Brasil, Calife representa uma nova espécie de escritor de ficção futurista no Brasil, que explora questões sociais, ecológicas e políticas, ao mesmo tempo em que especula sobre a colonização do espaço e novas tecnologias. Ele ultrapassa os limites dos escritores anteriores do gênero ao criar um mundo no qual a tecnologia abre um novo conjunto de possibilidades para o futuro.
Na revista Manchete, publicou o conto 2002, impressionando Arthur C. Clarke e o motivou a escrever uma sequência ao seu clássico 2001: Uma Odisséia no Espaço. As ótimas críticas abriram-lhe as portas para criar a trilogia Padrões de Contato.
Release: No ano de 2426 de nossa era, Ângela Duncan é acidentalmente exposta à influência da Tríade – uma forma de inteligência não biológica que constitui a mais poderosa manifestação de energia conhecida em todo o universo. Em consequência, adquire a juventude eterna e vive mais cinco séculos no mesmo estado físico de seus vinte e cinco anos. E só em 3002, quando volta a encontrar a Tríade, descobre que o primeiro contato não fora casual, e que na verdade havia sido gerada por aquela força para servir de ponte com os humanos – que a Tríade tanto queria conhecer melhor.
Neste romance, encontramos uma Terra cuja sociedade se estrutura sobre três polos fundamentais: o poder científico-tecnológico, o poder político dos governos e o poder econômico das megacorporações. Após a queda dessas últimas, a sociedade passa a ser dominada principalmente pelo poder científico e tecnológico, que busca unir o homem com a máquina ou, em Júpiter, procura ampliar o habitat e a percepção humanos pela fusão do corpo com próteses vivas, criando os simbiontes: seres humanos cobertos por formas de vida sintéticas (como se possuíssem uma segunda pele) que lhes penetra os poros, fazendo contato com os órgãos internos e o cérebro a fim de capacitá-los a realizar e concluir tarefas até então consideradas impossíveis, como sair de uma nave no espaço completamente nu, transformar-se num imã vivo ou trabalhar no fundo do mar como um homem-peixe.
Jorge Luiz Calife situa nesse período de cerca de 500 anos as quatro histórias inter-relacionadas que formam este livro, todas elas pontilhadas de incidentes, mundos estranhos e povoados das mais inesperadas formas de vida ou de inteligência. A saga avança com a descoberta de uma nave de gerações tripulada por brasileiros e vítima de uma cruel ditadura militar, uma guerra com parasitas espaciais, jornadas por de um buraco negro até o passado da Terra, e a resolução do mistério da Tríade.
No entanto, não é preciso ser uma autoridade no ramo para criar uma história de FC digna de boas críticas. O gaúcho Estevan Lutz, natural de São Sebastião do Caí, exerce a profissão de projetista elétrico industrial e, nas horas vagas, dedica-se à literatura. Já participou de duas antologias, Invasão e Draculea – O Livro Secreto dos Vampiros. Desde a adolescência, é amante das histórias de ficção científica. Tem como referência os autores Arthur C. Clarke, Isaac Asimov, Aldous Huxley, Carl Sagan e Douglas Adams, este último autor do ótimo O Guia do Mochileiro das Galáxias.
Na adolescência, Estevan adorava os livros e filmes do universo Star Trek, Star Wars e Arquivo X. Na mesma época, começou a devorar as histórias de Arthur C. Clarke e Isaac Asimov. Em seguida, foi atraído pelos gêneros suspense e terror através das obras de Stephen King. Em 2010, Estevan lançou seu livro de estreia, O Voo de Icarus, pela editora Novo Século.
Segundo o autor, tanto o processo de criação quanto o de desenvolvimento envolveu muita pesquisa e leitura, com o intuito de conceber uma história de muita introspecção, onde o narrador personagem ponderasse questões filosóficas que iam do comportamento humano até a hipotética estrutura do universo, trilhando um caminho de incertezas e guiado pelo mistério. Icarus, o personagem principal, demonstra muito fascínio pelos mistérios da ciência e, como contraponto, há outros personagens cujos pensamentos são orientados pelas Navalhas de Occam (princípio que afirma que a explicação mais simples de um fenômeno é a que deve prevalecer). De ambos os lados, surgem muitos argumentos e, em muitas partes, o leitor poderá se perguntar: mas o que realmente está acontecendo aí?
Icarus vive numa claustrofóbica sociedade futurista onde a maior parte da população preocupa-se exclusivamente com o mundo virtual, o que traz sequelas psicológicas graves como a dificuldade de encarar a sociedade tida como “real”. Após o protagonista superar a primeira fase de seu problema, ele começa a questionar o “mundo real”. Quais os critérios que determinam a realidade? Eis a jornada do centro do universo ao centro da inconsciência humana.
A receptividade foi bastante satisfatória. Os leitores que tiveram a consideração de resenhar o livro em blogs e sites disseram ter se surpreendido com as reviravoltas do enredo e com as questões levantadas na trama, que envolve tecnologias complexas como nanotecnologia, computação quântica, ressonância morfogenética e o universo holográfico.
Release: Num futuro próximo, na cidade marítima de Agartha, a vida do jovem Icarus oscila entre dois vícios: a realidade virtual e uma droga alucinógena denominada Nirvana. Em busca de tratamento médico, ele acaba se tornando voluntário para a experimentação de um avançado medicamento baseado na nanotecnologia, o Sinaptek, o qual, posteriormente, lhe causa uma extraordinária reação adversa: a projeção de consciência, o que lhe permite viajar por diversos lugares do planeta e para outros mundos, empreendendo uma jornada do centro do universo ao centro da inconsciência humana. Estaria tudo, apenas, na mente de Icarus?
Optando por não levar adiante sua busca por alguma possível editora interessada em publicar seu livro, o autor Ricardo Guilherme dos Santos, nascido em 16 de julho de 1968 e formado em Direito pela Universidade Mackenzie, aderiu à auto publicação e lançou seu livro de estreia, O Espaço Inexplorado.
Sua maior inspiração foi o poema O Homem; As Viagens, de Carlos Drummond de Andrade. A ideia central do poema é a de que o ser humano tem o hábito de sair em busca de um milhão de coisas, às vezes absurdamente caras, antes de procurar dentro de si o que realmente importa. Segundo o autor, a ficção científica em O Espaço Inexplorado é apenas um pano de fundo para falar de coisas que acha importantes, relacionadas sobretudo ao convívio entre as pessoas.
Release: Em formato de trilogia, O Espaço Inexplorado começa com Terra, que mostra o mundo do início do século XXII visto sob a ótica de William, um astrônomo de mais de 100 anos de idade, que há muito tempo perdeu a confiança no ser humano. Em meio à poluição extrema de nosso planeta e à sua superpopulação, um projeto governamental liderado pela jovem Aline consegue fazer contatos com seres de outras galáxias. Com a ajuda de espécies avançadas, uma astronave senciente é construída e parte em busca de um novo lar para a humanidade.
No volume 2, O Dom de Ver Além, William vê o mundo e as pessoas com pessimismo, enquanto sua primeira namorada, a bióloga marinha Rosana, enxerga em tudo e em todos um colorido bastante peculiar. Com uma sensibilidade muito desenvolvida, Rosana recebe uma importante incumbência de Maria – o Universo. A bordo da astronave Nazareth, uma tripulação muito especial viajará pelo autoconsciente Universo e pelas profundezas de nossos oceanos, encontrando perigos e fazendo impressionantes descobertas.
No desfecho da saga, Alvorada, novos personagens e espaçonaves entram em cena, ao mesmo tempo em que incríveis habilidades são concedidas a toda a humanidade. Com o início da colonização do planeta Alvorada, surpresas e aprendizados aguardam pelos heróis desta saga. Depois de efetuar algumas viagens interplanetárias e de conhecer mais profundamente a Terra e seus oceanos, chega o momento da tripulação da senciente Nazareth iniciar a fase mais importante desta nova era: desvendar o verdadeiro espaço inexplorado.
Tenho certeza que muitos de vocês já tiveram alguma fantasia com a princesa Leia. Compreensível. Mas poderiam também fantasiar, ou ao menos imaginar, um caso de amor carnal entre uma humana e um centauro alienígena? O veterano Gerson Lodi-Ribeiro o faz com maestria, sem ser non-sense.
Graduado em Engenharia Eletrônica e em Astronomia pela UFRJ, seus primeiros contos apareceram em fanzines como Boletim Antares e Somnium na década de 80. Sua estreia profissional como escritor deu-se com a noveleta Alienígenas Mitológicos, publicada na edição brasileira da Isaac Asimov Magazine nº 15. Na mesma revista, em seu número 25, publicou também A Ética da Traição (1993), noveleta pertencente ao subgênero história alternativa e reconhecida como um clássico moderno da ficção científica brasileira.
Dono de um currículo impressionante, Lodi-Ribeiro foi presidente do Clube de Leitores de Ficção Científica, representante do Brasil em congressos internacionais de ficção científica, e recebeu o Prêmio Nova 1996 de Melhor Trabalho de FC e Fantasia por O Vampiro de Nova Holanda e o Prêmio Nautilus 1999 de Melhor Noveleta por A Filha do Predador. Voltando ao centauro…
Lançado em 2011 pela editora Draco, A Guardiã da Memória narra o romance entre uma mulher e um centauro, criatura de uma estirpe tradicionalmente inimiga dos humanoides – especialmente os terrícolas. Uma surpreendente história de amor regada a sensualidade e aventura, que preza pela maturidade da ficção científica erótica brasileira.
Release: Em Ahapooka, o Mundo-sem-Volta, descendentes de náufragos de inúmeras espécies inteligentes erigiram culturas mestiças e vigorosas ao longo dos milênios numa tentativa de recriar as glórias de suas civilizações ancestrais. A maioria das culturas alienígenas de Ahapooka discrimina os humanos pela crença da evolução das espécies de forma espontânea, sem auxílio de promotores alienígenas. Para tentar reverter essa situação, a operativa humana Clara — heroína da premiada noveleta “A Filha do Predador” — é enviada para uma missão secreta no Império. Quando os planos da Nação Humana não saem como o esperado, Clara é obrigada a fugir às pressas a bordo de um navio tripulado por alienígenas anfíbias em companhia de um centauro. Isolada com ele por meses a fio, a amizade que a humana nutre pelo alienígena se transforma em algo mais.
Pensando no interesse pela temática e ambientação que muitos têm em mente quando pensam em ficção científica – aventuras com naves interplanetárias e batalhas espaciais com invasores alienígenas -, a editora Draco, uma das maiores incentivadoras da literatura fantástica nacional, decidiu lançar a coletânea Space Opera – Odisseias Fantásticas Além da Fronteira Final.
Space Opera, na verdade, é um subgênero da FC que traz aventuras espaciais e planetárias em cenários exóticos, com heróis e vilões que vivenciam conflitos pessoais empunhando suas armas sempre prontas para a luta. A expressão foi criada nos EUA, nos anos 40, em analogia às melodramáticas radionovelas da época, então chamadas de soap operas, sendo que Space Opera pode ser melhor traduzida como “novela espacial”, e é um sucesso na literatura, na TV e no cinema.
Com a presença de grandes talentos da ficção especulativa brasileira, como Gerson Lodi-Ribeiro, Clinton Davisson, Maria Helena Bandeira, Jorge Luiz Calife, Letícia Velásquez, Marcelo Jacinto Ribeiro, Flávio Medeiros Jr., e organizada por Hugo Vera e Larissa Caruso, a coletânea traz nove histórias onde os autores instigam os leitores a cada nova tecnologia apresentada, a cada aventura vivida e a cada momento de perigo e reviravolta, além de, é claro, a diversão que o gênero oferece. Conflitos políticos, batalhas espaciais, alienígenas, romance, espionagem, tecnologias do futuro, aventuras shakespearianas e um toque de jeitinho brasileiro.
Segundo Hugo Vera, o fato da antologia Space Opera apresentar escritores brasileiros traz mais do que a mudança do idioma inglês para o português nas histórias. Traz o “jeitinho brasileiro” na resolução das tramas e um humor típico do nosso povo. Mostra que brasileiros também podem escrever space opera, apesar de ainda não termos uma tecnologia espacial digna de nota, se comparada aos avanços da Índia, por exemplo, um país que ascende na exploração espacial, embora ainda mantenha seus problemas internos como o analfabetismo, a fome, a miséria, dentre outros. A antologia, mesmo trazendo as características de suas raízes norte-americanas, também traz um gostinho de Brasil em cada uma das histórias.
Como podem ver, não há uma linha pré-determinada para escrever ficção científica. Não é regra usar nomes abrasileirados ou alienígenas, ou ter como fonte de inspiração um poema nacional ou uma saga de comédia científica estrangeira. Há tantas ótimas histórias nacionais de FC quanto preconceito por parte de quem mais deveria incentivá-las. O próprio leitor.
Muitos reclamam que não há espaço para este tipo de literatura em uma terra saudosista demais a nomes como os citados Carlos Drummond de Andrade ou Machado de Assis. São grandes nomes, concordo; entretanto, já tiveram sua vez. Nada melhor do que chacoalhar a poeira e dar espaço ao novo. Como autor de literatura fantástica, não desmereço os clássicos nacionais. Afinal, tiveram sua importância na época em que foram lançados. Os tempos mudam. Como dito anteriormente, é preciso evoluir, ou ficaremos reverenciando histórias passadas enquanto obras atuais, que têm poder o bastante para se tornar referência, passam despercebidas.
Os antigos tiveram seus devidos créditos em seu tempo, parabéns. Hoje, outros autores precisam desse mesmo crédito. Críticas, boas ou não, mas construtivas, dão um enorme empurrão para que a inspiração fagulhe ideias que fujam das mentes criativas e invadam as páginas de livros fresquinhos para nosso deleite.
Eles já deram o primeiro passo. Depende de você dar o segundo.


















