[Review] Ouro, Fogo e Megabytes – literatura fantástica baseada no folclore nacional

Esse post foi escrito por Diego Pereira de Siqueira

Já se tornou lugar-comum dizer que o brasileiro não dá valor à sua própria cultura. Do carnaval ao cinema, de escritores ao açaí, parece que o que produzimos só é notado aqui quando faz sucesso lá fora. E dá-lhe explicações de ordem histórica, sociológica, ou mesmo de filosofia de botequim para explicar essa aparente desconsideração pelo que é nosso. Apesar de ter algumas ideias formadas sobre esse fato, não é sobre ela que quero falar agora. Apenas quero chamar a atenção para um fato: Mesmo que estejamos marcados por uma dominação cultural de outros países, sempre existiu em nosso meio pessoas talentosas que, longe de adotar uma postura cega de rejeitar essa influência, adotava um critério seletivo, tomando o que lhe parecia mais interessante para trabalhar sobre as condições locais. Desde Lima Barreto, passando pelos Modernistas e sua proposta de “antropofagia”, pelo cinema e música dos anos 1960, a inteligência e a criatividade sempre souberam encontrar seu caminho em um ambiente que era adverso a elas.

Nos últimos anos, o que tem chamado a atenção até para quem não gosta desse tipo de literatura, é a explosão de grandes obras de literatura fantástica, voltadas para um público erroneamente chamado “infanto-juvenil” (não gosto dessa classificação. Literatura é literatura ou não é, sem faixa etária, pois sempre que a lemos ela tem algo a nos dizer, não importa a idade). Claro que em parte isso se deve às adaptações cinematográficas de algumas dessas obras, mas não muda o fato que esse tipo de literatura agora tem uma posição consolidada, com um público definido, autores consagrados (ou não), além de possibilidades ainda não esgotadas para tratar de temas que nos tocam diretamente. Bruxos, elfos, fadas, anjos, animais falantes, são outra forma de falar de nossos medos, angústias, esperanças, além de nos possibilitarem uma saída temporária desse nosso mundo medíocre e cínico para vivermos aventuras incríveis, onde a resolução dos problemas parecem uma simples questão de vontade e inteligência (além de uma boa ajuda de seres e objetos mágicos, é claro!).

Como não poderia deixar de ser, essa influência chega também ao Brasil, onde a literatura fantástica, como toda boa literatura aqui, apenas aos poucos vem ganhando notoriedade. Nomes como André Vianco, Raphael Draccon e Eduardo Spohr mostraram o potencial desse gênero aqui no Brasil. Porém, esses autores conseguiram notoriedade usando elementos que já se tornaram quase universais: vampiros, anjos ou contos de fada dos irmãos Grimm, é claro que em um contexto brasileiro. Calma, não sou nenhum patrulheiro nacionalista a exigir que se escreva apenas utilizando o folclore brasileiro. É inegável que são bons autores e excelentes histórias, mas acho que hão de concordar comigo que ainda falta pessoas que explorem todas as potencialidades que o folclore nacional pode trazer.

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Nesse sentido, foi uma grata surpresa topar quase que por acaso com o livro Ouro, Fogo e Megabytes, de Felipe Castilho. O grande diferencial desse livro é justamente que ele se propõe a criar uma aventura a la Percy Jackson, mas utilizando inteiramente elementos do folclore nacional. A estrutura da história, em si, não apresenta novidades: é a típica jornada do herói, com uma pessoa aparentemente comum entrando, sem querer, em uma aventura, onde ela descobre um mundo muito mais amplo que não imaginava existir. No caminho, ele amadurece e é obrigado a tomar decisões morais a respeito do seu papel no mundo. Anderson Coelho, um típico nerd que vive mergulhado em jogos de RPG virtual sem se preocupar muito com o mundo que o rodeia. Contatado por uma organização misteriosa, ele descobre que caiporas, sacis e boitatás não são simples histórias.

Não vou entrar em detalhes do roteiro, isso fica para o leitor. O que quero chamar a atenção aqui é que, pela primeira vez, encontro uma história onde o folclore brasileiro funciona de um jeito que não pareça forçado ou cômico. Aqueles que associam imediatamente sacis e boitatás com as histórias de Monteiro Lobato e os quadrinhos do Chico Bento, vão se surpreender como eles são retratados aqui. Em certo momento, os heróis se confrontam com a Cuca, e não há como associá-la aqui com o monstrinho atrapalhado do Sítio do Pica Pau Amarelo: ela é uma ameaça real, pronta a estraçalhar Anderson com seus dentes afiados.

O mesmo acontece com as outras criaturas: o saci, os capelobos, o boitatá, e até o boto e a sereia. Como acontece nas histórias de Harry Potter e Percy Jackson, o fantástico e o mundano se misturam de forma natural, interagem e influenciam um ao outro. Uma boa sacada do autor foram as citações a Luis da Câmara Cascudo, o maior pesquisador do folclore brasileiro, e que o livro dá a entender que sabia da existência dos seres mágicos e transforma quase que em um personagem da história. Seria muito legal se essa mescla de ficção com história do Brasil fosse mantida nos próximos livros, mostrando personagens lendários interagindo com pessoas reais.

Para quem curte uma história divertida, onde um mundo novo e fantástico é encontrado a cada página, Ouro, Fogo e Megabytes não irá decepcionar. Ele é o primeiro de uma série de cinco livros, e espero ansioso pela continuação das aventuras de Anderson, para saber como Felipe Castilho irá tratar os outros elementos do folclore nacional. As possibilidades são grandes.

Tenho apenas uma única ressalva, e isso é de ordem apenas pessoal. Não gostei muito do começo da narrativa, pois o autor utiliza demais o recurso à linguagem virtual, reproduzindo diálogos tal como ocorrem nos chats de discussão. Mas isso é porque eu ainda sou um dinossauro em questão de redes sociais e novas tecnologias, até o meu facebook eu não abro muito. Para a nova geração cada vez mais “ligada” na net, isso não será um problema.

Em resumo, gostei muito do livro. O que me entristece um pouco é que a maior qualidade dele pode ser o principal fator de seu insucesso comercial. Explico: Anderson, em sua jornada do herói, toma a decisão de se envolver na causa de defesa do meio ambiente, enfrentando uma poderosa empresa que disfarça seus objetivos malignos com a cobertura de “responsabilidade empresarial”, tão cara aos “pilantropos” de plantão para enrolar a opinião pública. Em um país tão desigual quanto o nosso, com um governo e elite que desprezam os problemas do povo e que só iniciam mudanças quando são obrigados a isso (e, mesmo assim, fazem as mudanças para que nada mude de fato), o que distingue a boa literatura é o posicionamento que ela toma em relação aos problemas sociais. E não falo de posicionamento em um sentido restrito, partidário, mas sim de uma certa perspectiva que o autor se coloca frente às questões que sua literatura aborda.

Nesse sentido, Anderson é um herói “menos universal” que Harry Potter ou Percy Jackson: isto é, enquanto as aventuras desses dois heróis são, em grande parte, resultado da ação de um indivíduo ruim que ameaça um mundo que por si é perfeito, ou de questões de família mal resolvidas (narrativas fáceis de entender e de se identificar, não importa sua nacionalidade ou classe social), Anderson poderia voltar à sua vidinha normal e inofensiva, mas escolhe tomar posição a respeito de um tema polêmico, político (político entendido aqui em sentido amplo, não no seu sentido restrito, partidário), que ultrapassa o âmbito de seu círculo familiar: a preservação da natureza contra os que desejam explorá-la para seu lucro privado. E essa tomada de posição contraria interesses poderosos, de gente bem posicionada na mídia e no governo, interesses esses bem em evidência com a recente discussão do Código Florestal. A luta de Anderson nos faz refletir sobre questões incômodas para os donos do poder, incômodas porque nos fazem refletir, e a reflexão pode levar à ação.

O grande vilão do livro é um empresário boa pinta, carismático e com “consciência social”, aclamado por toda a grande imprensa como um benfeitor. Mas, na verdade, o que ele quer é aumentar seu poder e riqueza depredando a natureza. O discurso dele lembra muito o do Eike Batista. Contra ele, estão Anderson e seus amigos, que acreditam em um direito muito maior que o lucro privado, e estão conscientes que o que é veiculado pela grande mídia reflete mais os interesses de quem paga a matéria do que os da grande maioria. Por conta disso, não consigo imaginar esse livro sendo recomendado, por exemplo, na Veja, pelo modo como desmascara o discurso do grande herói dessa revista adoradora do agronegócio. Ou mesmo em algum dos grandes veículos de comunicação.

Mas isso só fala a favor do livro. Em toda a história da literatura, as obras realmente grandes não são as que ganharam popularidade fácil e rápida. Foram as que provocaram, instigaram, despertaram antipatias e fizeram as pessoas pensarem. Como diria Oscar Wilde, para ser popular é preciso ser medíocre. E isso, com certeza, Ouro, Fogo e Megabytes não é.

  • http://www.nosgeeks.com.br Gui Loureiro

    Pareceu interessante, mas eu acho meio babaca quando alguém quer fazer um título de cultura brasileira e faz sempre de saci, mula sem cabeça e tudo mais, não que a nossa cultura não seja rica o sufiiciente para dar bons livros, mas eu acho que ela já foi estressada em outros meios.