No Japão o termo otaku é referência a pessoas que evitam sair de casa e VIVEM para seu hobby de cultuar animes e mangas.
Deve ser difícil para as pessoas que nasceram na década de 90 compreenderem que um dia, até pouco antes de 2005, existiu uma época em que pronunciar o termo “anime” imediatamente lhe classificava com um alienígena. E caso você explicasse que o termo era uma alusão aos desenhos animados japoneses, isso lhe classificava como imaturo ou infantil.
Hoje é normal você encontrar uma tribo chamada OTAKU. Esses autodenominados fãs de animes, que fora do território oriental onde o termo é extremamente ofensivo, usam suas roupas pretas com animes ou bandas estampadas, touquinhas com os mascotes de suas séries favoritas e zilhões de chaveiros que ecoam seu atrito por onde passam.
Neste tempo remoto onde os primeiros eventos que ainda eram chamados humildemente de “encontros” tinha como objetivo principal algo que era muito difícil: conhecer alguém que gostasse do mesmo anime que um amigo seu havia emprestado um VHS com não mais que 3 episódios. A dificuldade de obter títulos era imensa, mas a de se fazer amizade e finalmente conhecer uma pessoa que partilhasse do mesmo gosto era pior ainda!
Era uma verdadeira caça. Íamos aos eventos animados, dispostos a converar com todos e loucos para, em uma banquinha onde um VHS ou um manga velho importado era vendido, alguém estivesse de olho em algo para que você pudesse dizer: “Eu adoro esse anime!” e dali surgir uma boa amizade.
A partir dali, você não estava mais só naqueles “encontros”. A partir do seu primeiro, você já entrava em um grupo e estavam sempre juntos fosse para assistir animes, trocar mangas e nos tempos mais complicados onde surgiram os primeiros cosplayers de anime do Brasil, conseguir um grupo de cosplay.
Tudo isso era muito bonito e devo dizer, era quase uma empreitada. Ergui diversas vezes a bandeira do movimento. Tínhamos sede por difundir essa cultura, nossos gostos. Quando aparecia algo relacionado a animes na televisão, todos gravavam, ficavam felizes e pensávamos: quando seremos respeitados pelo que gostamos? Não seremos vistos como os alienígenas ou como as crianças que assistem desenho animado?
Pois bem.
Este dia chegou.
Porém houve um erro. Algo que não estava em nossos planos.
Não havia mais pessoas querendo conhecer outras nos eventos, elas queriam competir com elas.
Aqueles que tanto tentamos fazer parte, aquele grupo que em nossa adolescência onde otaku era sinônimo de estranheza e queríamos tanto adentrar… Lembrei! O nome desse grupo é sociedade! Aquele grupo agora era chamado por nós, que nos denominávamos otakus de: humanos – no sentido de inferioridade, sem cultura e acreditem, RAÇA INFERIOR.
É possível gostar dos animes de forma saudável sem se alienar ou meramente “fingir a si mesmo” que não pertence ao grupo.
Cheguei a ter um sério conflito sobre minha idade. Refleti sobre estar envelhecendo quando comecei a notar que eu não mais sentia prazer a ir a eventos, ver pessoas disputando troféus de plástico em competições de cosplay, animekê, o que fosse, que terminam com xingamentos e humilhações na internet, que não achava mais legal ver aqueles que tanto se uniam brigando em nome de seu manga favorito.
Hoje me deparo com uma postagem no facebook em que grandes nomes da literatura, romancistas aclamados como Machado de Assis, Jorge Amado e Paulo Coelho, o último sendo o brasileiro best-seller em todo mundo, sendo menosprezado ao se dizer que jamais (ou CHAMAIS como diz a imagem) chegarão aos pés de mangakas como Hiro Mashima e Eiichiro Oda. Pior é que a partir daí os comentários incluem a chamá-los de tudo.
E então concluo que a “raça” otaku se tornou o que tanto desprezava.
Hoje vejo pessoas extremamente alienadas que negam a própria cultura, falam mal de sua nação com uma cangalha onde imaginam que viveriam no Japão, teriam poderes, etc.
Em seus iPods só existe música japonesa e coreana.
Em suas prateleiras, apenas DVDs de anime.
Em suas mentes apenas a cena onde seu personagem atua heroicamente, provavelmente baseada em uma cena que o autor deve ter lido em um dos zilhões de romances famosíssimos produzidos em terras tupiniquins e que esses jovens se vangloriam em cuspir.
Com a ascensão do Facebook, não é dificil encontrar imagens como esta onde se sugere a superioridade e denominação de salvação otaku!
No Dia da Independência, recentemente, uma fanpage fez algo no mínimo curioso. Colocou Naruto vestido com as cores de nossa bandeira comemorando o dia. Uma ideia bacana para a data ser lembrada para a página que é dedicada a animes.
Infelizmente, fui ver os comentários e 90% deles diziam que a imagem era legal, mas o país, segundo eles, uma droga. Não sou extremamente patriota, mas só posso ver isso como um imenso desrespeito a nossa pátria, a nossa nação.
Li a pouco um comentário sobre o tema em que alguém dizia que eles (nós?), otakus, não são uma raça e sim uma ELITE DA SOCIEDADE.
Sim, nós erramos.
Criamos essa geração que se denomina a elite.
A geração que não quer conhecer alguém ao seu lado, pois pode gostar do anime ‘rival’ da Shonen Jump, ou alguem que além de animes assiste novelas ou filmes. Meninas que brigam porque tem casais de anime favoritos distintos, brigam e se ofendem em comunidades e fanpages afora. Os assuntos se resumem a animes, a menosprezar qualquer coisa que não seja o seu gosto – porém creio que neste lado toda esta geração de autoafirmação tende a impor seus gostos por mais excêntricos que sejam. Seria uma questão social?
A alienação chegou a um nível crítico e eu lamento profundamente dizer que tenho evitado ir a eventos e presenciar essas cenas, no mínimo, deprimentes.
Lamento mais um dia ter erguido a bandeira, criado fanworks e ter tentado ao máximo difundir essa cultura.
Hoje eu não mais quero ir a eventos. Prefiro, quando quero, assistir um anime, sentar em meu sofá e chamar aquele grupo de amigos e assistir. E mesmo assim ter ciência de que quando o encerramento do anime acabar, todos nós poderemos rir, conversar e lembrar que a vida real existe.
Esse post é quase um desabafo, mas é algo entalado que há muito precisava expor. Minha imensa tristeza em ver uma geração totalmente alienada, impossível de se socializar e que tem em mente ser uma elite.
Está na hora de colocarmos os pés no chão e abrir os olhos para a realidade e viver o momento visando nosso próprio futuro e não apenas se preocupar com o spoiler do manga da semana que vem.
E um dia tentar recuperar aquilo que tanto lutamos para ter e hoje perdemos com nosso próximo: respeito.













