Desde pequeno eu gostava da história dos Três Mosquteiros, eu via um famoso desenho criado na década de 60 pelos estúdios Hanna Barbera e adorava as aventuras destes 4 heróis.
Os filmes também eram empolgantes, mas sempre quando eu falava com meu pai, o maior devorador de livros que eu já conheci, ele falava que não tinha nada a ver com a obra de Alexandre Dumas. Ele não podia estar mais certo.
Recebemos da editora Generale / Évora o livro original de Alexandre Dumas e eu me deparei com algo que eu nunca havia lido. Alexandre Dumas desconstruiu para mim o que eram quatro distintos heróis, um pouco galhofeiros, mas sempre heróis, para apresentar quatro anti-heróis com características extremamente engraças e cheias de falhas humanas.
D´Artagnan, Athos, Porthos e Aramis são simplesmente um lixo, eles são sujos, mentirosos, fanfarrões, enganam as mulheres, beberrões, briguentos e muitas outras coisas que podemos acrescer aqui, mas é exatamente por isso que eles são apaixonantes.
O início da história nos mostra um jovem D´Artagnan indo a Paris virar mosqueteiro, então ele se bate com os três amigos e marca um duelo com cada um, todos no mesmo dia, um na sequência do outro, isto é… se ele sobrevivesse ao primeiro embate. Porém, as curvas do destino sorriem para o jovem D´Artagnan e os três, ou melhor, os quatro personagens são atacados pela guarda do Cardeal Richelieu e o jovem D´Artagnan resolve ajudar os três mosqueteiros e com isso se torna grande amigo deles.
Depois disso, os quatro amigos, se envolvem em uma intriga político-religiosa, que envolve o Cardeal Richelieu, o Rei Luis XIII, a Rainha Ana (ambos da França, sendo a Rainha Ana da Áustria) e o Duque de Buckingham da Inglaterra, que está apaixonado pela Rainha Ana e por ela pode levar o país a uma guerra contra a França e realmente leva.
A Trama
Basicamente a trama é a seguinte, o Cardeal Richelieu possui um poderio político e militar grandioso e é o grande arquitetador das guerras para expansão de território e poder, ele tendo o poder militar em suas mãos, faz frente ao poder de Luis XIII da França, marido ciumento, da Rainha Ana da Áustria. O Cardeal, visando ter Luis XIII em suas mãos por completo, visa mostrar a infidelidade de Ana, com informações que diz possuir que ela tem um caso extraconjugal com o Duque de Buckingham, favorito do rei Carlos I da Inglaterra, sendo assim, uma traição dupla: ao casamento e à coroa francesa. E nesse universo político, os quatro heróis são envolvidos como fantoches de um joguete de poder, que apenas aceitam participar por desafeto nutrido pelo Cardeal.
Nesse cenário, ao lado do Cardeal, exercendo suas ordens, estão o Homem de Meung, alguém que D´Artagnan odeia por o ter ofendido em determinado momento de sua vida (lembrando que estamos na época dos cavalheiros e duelos, portanto honra para eles é muito importante e as ofensas não podem sair impunes) e a encantandor Milady Winter, uma mulher misteriosa, com voz melodiosa, capaz de encantar qualquer homem, até mesmo o mais puro de coração.
Ao lado da Rainha Ana está Constance Bonacieux, uma jovem arrumadeira, confidente da Rainha, que por amor a mesma, resolve ajudá-la com o caso de Buckingham e também é quem envolve D´Artagnan (que por ela se apaixona) na aventura e este envolve seus amigos.
Os Personagens
A realidade é que ninguém é santo e nem demônio no livro de Dumas, os personagens são muito reais e muito ricos em personalidade e você se afeiçoa a cada um deles em determinado momento, até mesmo aos mais ruins, como o Cardeal ou Milady Winter e no final até a Rochefort, o Homem de Meung.
Os Três Mosqueteiros e sua trupe
- D´Artagan – Na verdade D’Artagnan não fazia parte do corpo de mosqueteiros, ele fora a Paris com esse intuito, mas para se consagras mosqueteiro, é necessário recomendação do próprio rei ou do Cardeal, dessa forma, D’Artagnan fica a serviço da guarda de Essarts. D’Artagnan é o mais esperto dos quatro heróis, é também o mais jovem deles e pode-se dizer o mais habilidoso na espada e até mesmo no comando. D’Artagnan se mostra um prodígio em tudo o que faz e é muito bom na intriga política, menos que Athos, mas ainda assim muito bom. Ele é um grande filha da mãe, ao longo do livro ele se enamora de Constance Bonacieux que é casada, ele engana o marido dela e visa receber dinheiro para salvá-la de seu rapto. Ele da uma aloprada no Sr. Bonacieux. Além disso, para se aproximar de Milady Winter, ele engana Ketty a sua aia e a seduz. Também o caso com MIlady Winter vai longe, mas não irei contar mais para não estragar a surpresa.
- Athos – O mais velho dos mosqueteiros, Athos possui um passado sombrio e desconhecido por seus amigos. Athos, o homem que não ri, apenas sorri às vezes é o herói que analisa tudo o que está acontecendo para daí tomar ação, mas quando a toma, todos o respeitam, pois seu olhar e voz de comando são impossíveis de serem questionados. É outro que também não vale nada. Mas se eu contar muito mais coisa estragarei o livro. Uma das melhores passagens de Athos é quando ele fica preso, junto de seu criado em uma adega, tomando todos os vinhos do estalajeiro.
- Porthos – O mais fanfarrão e briguento dos três. Porthos é declaradamente um sedutor. Ele faz de gato e sapato a sua amante e rouba o dinheiro dela na cara dura.
- Aramis – Aramis é talvez o personagem mais chato do livro, ele é um falso moralista. Apesar de ser um mosqueteiro, o que quer mesmo é ser ordenado padre. E por isso diz não cair nas tentações mundanas, mas seus amigos sabem que possui diversas amantes (inclusive influentes) a quem ele chama de primas.
- Os Quatro Criados – Cada um dos heróis possui um criado: Planchet (lacaio de D’Artagnan) é igualmente inteligente como o seu senhor, mas menos audaz e comedido; Bazin (lacaio de Aramis) que tenta fazer o seu senhor entrar para a igreja; Grimaud (lacaio de Athos) faz as suas funções sem pestanejar e é proibido de falar qualquer coisa; Mousqueton (lacaio de Porthos) é o que menos aparece, mas é glutão igual o seu senhor. Sem os lacaios, os heróis não conseguiriam chegar aonde chegaram, por isso acho injusta a falta deles nos filmes, principalmentea de Planchet.
Sobre a Narrativa
Alexandre Dumas é perfeito, os capítulos são ininterruptos, ou seja é ação do início ao fim, somente em um momento quando o personagem central do capítulo é Milady WInter que o ritmo esfria um pouco mas aí é que você nota como Dumas é um autor de mão cheia, pois antes você imagina que ele só consiga escrever sobre aventuras e é então que você se depara com toda a sedução e inteligência feminina de Milady Winter. O livro é narrado em terceira pessoa, acompanhando cada personagem em seus momentos, mas além de aventura, sedução, estratégia, inteligência e amor exacerbado, nos deparamos com situações engraçadas, até mesmo em momentos trágicos, o que deixa uma narrativa super leve e divertida.
Sobre a Tradução
A tradução está perfeita, foi traduzido do original em francês e está recheado de notas de rodapé para explicar os termos da época, afinal Dumas escreveu isso no século XIX. O tradutor é Alexandre Callari, o autor de Apocalipse Zumbi (que também recebemos da Évora e em breve teremos uma resenha aqui) e Quadrinhos no Cinema e tradutor de Conan – O Bárbaro de Robert E. Howard. As notas finais do livro são essenciais para quem quer se aprofundar na história e no cenário histórico que ALexandre Dumas usou. Alexandre nos conta se os heróis são baseados em alguém real ou não e se Dumas usou o plano político religioso da época com fidelidade. Parabéns à tradução, ficou muito boa.
Conclusão
Vá correndo comprar a sua edição, Os Três Mosqueteiros é um livro apaixonante, não só definiu o gênero capa e espada, como para mim é o melhor livro do gênero, apresenta anti-heróis sensacionais e você se apaixona pelo estilo de narrativa de Dumas, querendo inclusive ler outros livros seus, como a continuação de Os Três Mosqueteiros, Vinte Anos Depois e O Visconde de Bragellone (da onde surgiu a história do Homem da Máscara de Ferro). Além disso ele tem outros livros como O Conde de Monte Cristo (que é o próximo da minha lista).

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