[Na Estante] “O Rei Rato” é terror urbano que Neil Gaiman diz ser a literatura do novo século

Rei Rato [Na Estante] O Rei Rato é terror urbano que Neil Gaiman diz ser a literatura do novo século

Já começo falando que talvez a versão original do livro (inglês) seja mais interessante de se ler que a em português (Alexandre achei seu trabalho estupendo, de verdade) e não é nada contra a tradução e sim com a forma como a historia foi construída. Algumas falas no original possuem ritmo, o ritmo vem de gírias que são praticamente impossiveis de serem reproduzidas no Brasil e então só ficamos sabendo delas quando lemos a referencia colocada no final do capitulo. Isso é falado por uma pessoa chata que está pensando na sonoridade e não no geral em si, mas eu gosto muito do geral do livro.

Como há um comentário do Neil Gaiman falando que é a literatura para o novo seculo, ou algo assim, vamos comparar o livro com não um, mas dois livros desse outro autor.  O rei rato possui uma forte ligação com um livro do Gaiman chamado Lugar Nenhum (ou eu devia dizer série?) e ao mesmo tempo você percebe resquícios de Deuses Americanos no meio do livro… Em resumo o Rei Rato apenas da aquela impressão no começo e logo ganha o seu próprio tom e a sua própria linguagem.

A Publisher Weekly deu até uma definição que eu gostei bastante e achei bem realista.

Desde a imagem que abre o romance (“os trens que entram em Londres chegam como navios que singram os telhados”), a narrativa crepita com uma mistura fascinante de descrição impressionista e gírias de rua que poderosamente pinta a esquálida paisagem urbana de Londres – Publisher Weekly

Lembra que eu disse que o original deve ser mais legal? O autor abusa das girias cockney (“one snif of I suppose” “allways follow I suppose” No caso I suppose rima com Nose e é uma maneira de falar no cockney), o cockney é um dialeto falado pelos habitantes do East End de Londres. Também abusa das descrições do Jungle (musica eletrônica nascida na Inglaterra) suas vertentes, logo ele fala do cenário musical underground Londres.

Agora pulando para a historia eu preciso falar que Saul, o personagem principal, chega em Londres e vai direto para casa do seu pai. Logo no começo do livro fica obvio a inaptidão de Saul e seu pai de conversarem e interagirem, nem sempre foi assim, e claramente algo mudou em Saul e o pai não sabe o que é e nem consegue lidar com isso. Logo depois de chegar em casa Saul ignora a presença do pai e vai para o quarto.

No dia seguinte ele acorda com a policia batendo a sua porta e o levando para a delegacia. Lá ele é interrogado sobre a morte do seu pai e logo o tom muda para uma pergunta: Porque você matou o seu pai? Ele apenas negando, negando e negando. Até que aparece uma figura degenerada oferecendo a chance de sair.

Da apresentação eu fiz esse quote logo abaixo:

Deixa eu te falar de mim.

Eu posso ouvir coisas não ditas

Eu conheço a vida secreta das casas e a vida social das coisas. Leio nas entrelinhas das paredes

Eu moro na velha cidade de Londres

Deixa eu te dizer quem  eu sou

Eu sou o chefão do crime. Sou aquele que fede. Sou o chefe dos fuçadores de lixo, vivo onde vc me quer. Sou o intruso. Eu matei o usurpador, eu te levo sob minha custodia. Matei metade do continente uma vez, eu sei que navios estão afundando. Posso quebrar suas armadilhas em meu joelho e comer o queijo na sua cara e te deixar cego com meu mijo. Eu sou o que tem dentes mais duros no mundo, sou o menino que usa suíças. Sou o Duce dos esgotos, eu controlo o subsolo eu sou o rei.

Saul e o Rei Rato saem da delegacia sem qualquer problema e começa a louca e desvairada aventura de Saul por Londres com um Homem e Rato. Logo ele descobre que ele é descendente da família real de ratazanas e que existe um porém na historia do Rei, os ratos não o seguem mais e há um motivo para isso.

Aqui o livro fica muito interessante pois ele faz uma ponte com aquele conto do Flautista de Hamelin e os ratos que ele matou. Existe uma versão de um rato que sobrevive à chacina e esse um que sobreviveu foi o Rei Rato, mas só ele sobrevivendo não deixou margem para que os ratos do resto do mundo soubessem o que realmente aconteceu. Logo o rei foi motivo de chacota e simplesmente ignorado pelos seus súditos.

Além do Rei Rato o Flautista possui outros inimigos como Anansi o senhor das aranhas e Loplop o pássaro superior. Ambos foram caçados pelo flautista e destituídos de seus reinos, Loplop foi levado a loucura e Anansi humilhado em frente ao seu súditos.

Esse livro é um terror urbano, psicológico e um tanto quanto doente e com algumas cenas gore. Eu gostei do livro principalmente das paginas finais que eu simplesmente não consegui parar de ler, espero que aqueles que o lerem possam aproveitar tanto quanto eu aproveitei.

Sobre o autor:

China Miéville vive e trabalha em Londres. Seu primeiro romance, Rei Rato, foi nomeado para o International Horror Guild e o Bram Stoker Awards; a ele se seguiram Perdido Street Station, vencedor do Prêmio Arthur C. Clarke e do British Fantasy Award; The Scar, vencedor do British Fantasy Award; Iron Council, vencedor do Prêmio Arthur C. Clarke; Looking For Jake and Other Stories; e Un Lun Dun. The City & the City venceu o Prêmio Arthur C. Clarke, o Hugo e o World Fantasy Award de 2010, além de ter sido indicado para o Prêmio Nebula na categoria Melhor Romance.

  • http://twitter.com/weberson_santos Weberson Santos

    Parece ser bacan hem .. já está na minha lista de “Próximos Livros” hehe

    • Matts Neves

      Cara faça isso. Vou aumentar a sua lista mais ainda ;x

      • http://twitter.com/weberson_santos Weberson Santos

        Opa, isso é bom hehe .. agora que estou me livrando da faculdade vou poder vários e vários livros kk

  • Alexandre Mandarino

    Oi, Matts! Sem problemas, eu concordo com você: todo livro no original é sempre mais legal, porque tem o ritmo que o autor pretendia.

    • Matts Neves

      Sim realmente é mais legal, mas a facilidade e a acessibilidade que a obra ganha quando traduzida não tem preço.

  • http://www.nosgeeks.com.br Gui Loureiro

    Adorei a resenha e gostei muito das analogias feitas com as lendas, como a do Flautista de Hamelin. Além disso, Anansi, além de mitológica, também é uma personagem de um dos livros de Neil Gaiman, né não?

    • Matts Neves

      Em dois livros do Gaiman, Deuses Americanos e Filhos de Anansi. Como eu li os dois posso falar que os dois tem o traço da cultura africana da onde saíram, mas são bem distintos um do outro nos aspecto de adaptação.

      Acho fenomenal livros que usam analogias contos antigos como se fossem releituras. Não tem o que reclamar China Miéville é um autor que impõe respeito logo na estreia.

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