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[Na Estante] A Mulher de Preto


Quando comprei A Mulher de Preto, de Susan Hill, fui atraído pela propaganda na contracapa: “Uma história para quem gosta de sentir calafrios”. Confesso que ainda não tive a oportunidade de assistir ao longa estrelado pelo Daniel Radcliffe, não pelas opiniões e críticas que circulam pela rede – nada positivas -, mas por não gostar de cinema e estar esperando a versão Bluray. Nada melhor do que assistir no conforto do lar.

Vale uma ressalva. O livro foi publicado em 1983, em um tempo onde o terror que funcionava era outro. O original daquela época hoje se tornou clichê desgastado. A porta que estava fechada e que você sabe que estará aberta quando olhar novamente; os caipiras misteriosos que escondem um terrível segredo; o espírito vingativo. Está tudo presente em A Mulher de Preto.

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Se você espera uma história de terror, sentir medo ou mesmo os prometidos calafrios, se decepcionará. No entanto, se está aberto a conhecer uma experiência angustiante, vá fundo e se deixe levar pelos questionamentos entre fé e razão, realidade e além. Não senti calafrios tampouco medo, porém a sensação não foi boa. As palmas das mãos esquentaram enquanto folheava ávido. O estilo de Susan é típico da época. Descrições detalhadas até do que não precisa ser descrito com tanta minúcia. A atmosfera pesada faz o leitor sentir como se estivesse na Casa do Brejo da Enguia. Embora não seja uma leitura fluída, o livro é curto (pouco mais de 200 páginas) e envolvente. Pode ser lido em uma noite. Portanto, puxe o edredom, ilumine apenas o necessário e mergulhe no relato do jovem advogado Arthur Kipps, último recurso para exorcizar o fantasma que habitou seus pesadelos por longos anos.

Tudo começa em uma reunião familiar em véspera de Natal, reunidos na sala e contando histórias de terror. Arthur já é um senhor idoso e se limita a ouvir os mais jovens em suas tentativas de assustar. Quando é quase obrigado a contar uma também, foge da sala como o diabo fugindo da cruz. Arthur não conhece histórias de fantasmas arrastando correntes por castelos assombrados, tampouco monstros reclusos no pântano prestes a sequestrar viajantes perdidos. A história que Arthur conhece é bem mais simples e real do que isso. Mais assustadora. Em longas páginas de conversa com si mesmo, Arthur decide aproveitar as festas e, tão logo as visitas tenham ido embora, colocará tudo no papel, em uma forma de se livrar do fardo, sentir-se mais leve.

No capítulo seguinte somos transportados vários anos antes, quando Arthur, ainda um jovem advogado, é indicado para um trabalho importante. Recolher documentos de uma recém-falecida cliente em Crythin Gifford, Alice Drablow. Parece uma tarefa demasiado simples, não fossem os mistérios que cercam a Casa do Brejo da Enguia. Chegando à cidadela, Arthur interage com poucos personagens, e todos demonstram algo semelhante a medo à menção do nome da falecida ou de sua propriedade. Arrogante por sua condição de homem da cidade grande, Arthur decide que não passam de caipiras supersticiosos e se prepara para o trabalho.

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No funeral, Arthur tem seu primeiro contato com a mulher de preto. Não assusta, pois o mais lerdo dos leitores perceberá que aquela estranha mulher com aparência doente não é uma pessoa, e sim um fantasma. No entanto, Arthur acredita em tudo, exceto a verdade, mesmo diante dos personagens quase morrendo do coração só de ouvir falar o nome da bendita. Está escrito na testa deles e ele não vê. O personagem parece lutar contra a tentação de aceitar algo que não lhe foi ensinado. Conduzido por um silencioso cocheiro, Arthur chega à casa dos Drablow. De início, parece um ótimo lugar para se viver. Embora localizada em um lugar inóspito, a casa exala uma aura de paz digna de “lar, doce lar”. As descrições dos brejos e, inclusive, do tempo, fazem o leitor ver com facilidade a imagem em palavras. Para o leitor mais ávido, que se entrega, arrisco dizer que será possível ouvir o som da água e o uivo baixo do vento.

Porém, após algum tempo de calmaria andando pela casa, essa paz se dissolve no momento em que a mulher de preto aparece pela segunda vez. Não é a mulher que causa desconforto, mas algo em sua presença, uma sensação sufocante, um mal disparado pelo olhar. Em primeira pessoa, é fácil se sentir no lugar de Arthur e, consequentemente, sentir o mesmo mal-estar. O lugar que a pouco parecia a casa dos sonhos, se torna o último lugar na Terra que você gostaria de estar. Não há perseguições, não há sustos fáceis, não há uma sucessão de acontecimentos bizarros (como portas abrindo e fechando, ao melhor estilo Poltergeist, ou vozes gritando a plenos pulmões na escuridão). O que há é um homem que não sabe mais em que acreditar, sozinho em uma casa onde o ar começa a pesar e o sentimento de urgência em sair dali cresce descontroladamente. E funciona, desde o desenvolvimento das ideias até a execução da atmosfera. Como eu disse, é uma narrativa densa, mas gostosa de acompanhar. E, como uma excelente contadora de histórias, a autora sabe o quanto descrever, não apelando para o mau gosto de salas cobertas por teias de aranha ou espectros banhados em sangue, gemendo pateticamente e perambulando pelos corredores - sim, o trabalho de Susan Hill se baseia na criação da atmosfera, na sensação perturbadora de terror que desperta e acelera no coração de nosso narrador, lentamente, gradualmente, e sutilmente.

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A construção de Arthur Kipps vai além de colocar uma cabeça falante em uma casa assombrada para contar aos leitores o que está acontecendo. É prazeroso acompanhar a evolução de um homem cético e com traços de arrogância cosmopolita a alguém assustado e indefeso diante de uma força incapaz de vencer. Mesmo após todas as péssimas experiências na Casa do Brejo da Enguia, Arthur tenta recuperar seu eu e, mais uma vez, é arrogante o bastante para pensar estar livre de algo que ninguém escapou, conduzindo ao excelente desfecho.

Em diversos livros, assim como a definição habilmente detalhada é o que faz a novela ter sucesso, A Mulher de Preto é uma história de fantasmas sobre um espírito com negócios inacabados, e Arthur é o homem que chama sua atenção. Eu não quero entregar spoilers, então vou simplesmente dizer que funciona. Simples e tradicional, a história funciona.

Como em um bom livro, nada acontece por acaso. A mulher não se veste de preto apenas por ser uma cor típica do gênero, há uma razão por trás de suas vestes. Não há manifestações sobrenaturais em cada esquina da casa, apenas onde deve haver, em um local com resquícios de uma antiga tragédia. A trama é bem conduzida e em momento algum se torna monótona, mesmo em capítulos inteiros de conversa entre Arthur e algum dos assustados moradores de Crythin Gifford, ou outro capítulo inteiro de pensamentos de um narrador enlouquecido sobre o que é ou não é.

Embora escrito há mais de 25 anos, A Mulher de Preto é uma leitura absorvente e divertida, ótima opção para quem quer conhecer um estilo de narrativa que preza pelo bom senso e pela linearidade, que não cai em mesmices e que, ainda assim, cumpre o que promete. Não os calafrios, mas a sensação de estar sendo observado por um espírito que ainda tem contas a acertar enquanto você vira a página. Aliás, acho que tem alguém me olhando…

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