Lei anti-jogos – um atentado contra a inteligência e a liberdade de expressão

Eu ia evitar postar sobre o projeto de lei Anti-Games por ser estúpido (o projeto, não eu), e, dessa forma, qual o objetivo de falar sobre algo estúpido? Não vou enumerar a quantidade de situações violentas que vemos na televisão na hora no almoço, não vou mesmo. Também não vou falar de como filmes violentos passam na televisão nem mesmo sobre os pornôs. Na televisão e no cinema temos a classificação indicativa de quem pode e quem não pode assistir os programas, os jogos também possuem o mesmo dispositivo.

Querer colocar vídeo-games como algo ofensivo à sociedade é completamente sem sentido. Proibiram CS e Everquest a alguns anos atrás e cadê os resultados positivos que eles trouxeram para a sociedade? Não existem os dados porque depois disso não deram mais atenção e mesmo que tivessem, onde raios estariam os comparativos?

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Esse é Richard. Ele sabe que seu trabalho é ensinar ao seu filho Scotty sobre o que é toda essa coisa de jogar. A classificação de idade o ajuda escolher os jogos certos, mas para ser um bom pai isso significa que ele sempre quer saber mais e é exatamente para isso que o sumário da ESRB serve.

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Você deve conhecer Joshua. Ele ama jogos e tem o bastante para saber que nem todos são para crianças. É por isso que ele sempre lembra seus amigos (pelo menos os que têm filhos) do motivo das caixas terem grandes letras pretas para ajudar os pais a acharem o que é melhor para seus filhos.

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Para Juri, a grande letra na caixa é um bom começo. Mas algumas vezes ela quer saber mais sobre os jogos que Sean e Maia querem jogar. E agora ela pode fazer isso do celular dentro da loja. Você pode fazer o mesmo com o ESRB free mobile app (acho que no brasil não tem essa função)

A classificação indicativa é feita pelo departamento de justiça e é o meio mais justo de deixar a sociedade saber sobre a faixa etária que o jogo quer atingir. Existem jogos violentos? Com toda certeza que sim, mas do mesmo jeito existem filmes violentos, livros violentos, músicas violentas e noticiários violentos. Cabe a gente, isso inclui os pais, a avaliar se aquilo que seu filho está jogando é condizente com a sua idade. Penny Arcade criou uma campanha super legal para a ESRB que você vê ai em cima, e a classificação indicativa / pais é a forma mais eficaz de controlar.

Vamos à lei propriamente dita e eu não quero me prolongar muito no assunto. Duas partes que eu tirei do último relatório feito do projeto de lei.

Pesquisas realizadas em 1999, nos Estados Unidos, e apontadas por Vítor C. Strasburger em “Os adolescentes e a mídia: impacto psicológico”, registram que, embora a violência na mídia certamente não seja a causa principal da violência na vida real, ela é um fator significativo (citado por Lynn Rosalina Gama Alves, em “Jogos Eletrônicos e Violência: Desvendando o Imaginário dos Screenagers”)

A violência nos meios de comunicação pode facilitar o comportamento agressivo e anti-social, diminuir a sensibilidade dos espectadores em relação à violência e aumentar sua percepção de viverem em um mundo mau e perigoso

Além de existir pesquisas mais novas, vamos ao outro ponto extremamente sensível dessa lei, a parte mais importante e vaga possível.

§ 2º Incide na mesma pena do caput deste artigo quem fabrica, importa, distribui, mantém em depósito ou comercializa jogo eletrônico ofensivo aos costumes, às tradições dos povos, aos seus cultos, credos, Religiões e símbolos
§ 3º Se qualquer dos crimes previstos no caput ou no § 2º é cometido por intermédio dos meios de comunicação social ou publicação de qualquer natureza:
Pena: reclusão de dois a cinco anos e multa.

A lei-anti-jogos caminha de mãos dadas com a incompetência (desculpe-me, a lei precisa ser feita consultando pessoas competentes do segmento) e a incoerência. Estamos classificando jogadores como usuários de droga, por exemplo, e eu sei que beira o absurdo só que essa é a forma que os jogadores são vistos pelos governantes e isso é realmente deprimente.

Drogas, sim, são algo que geram violência e distúrbios nas pessoas e nem precisamos falar de drogas ilícitas. Esse é um problema real e por um acaso alguém já teve a ideia de banir qualquer uma delas? A bebida alcoólica é um exemplo e, bom, já que tocamos nesse assunto, a lei seca americana ajudou a alavancar o mercado negro americano e eles fizeram fortuna com isso. Será mesmo que precisamos dar mais poder ao mundo paralelo? Se for isso, então, a partir de agora, jogar não é mais jogar e sim usar o jogo.

Ontem mesmo, usei um jogo que vai contra os bons costumes. Ele se chama Saint’s Row the Third e o jogo vai me deixar alienado, fazendo eu querer sair pelado na rua e bater nos outros com um gigantesco consolo roxo. Sério, eles não percebem que tudo é uma paródia? Um escape? Uma historia que os jogadores… digo, os usuários têm o controle? Deviam ser banidos os contadores de histórias também?

Vamos abordar um tema um pouco mais sensível no momento. De todos os crimes que você ouve falar, quantos são atribuídos aos jogos? Apenas aqueles que são com pessoas mais novas… então significa que os jogos estão estragando a sociedade e não a falta de atenção que a sociedade recebe por parte dos governantes? Mas aqui temos um pequeno problema, gamers não são como a grande massa que assiste televisão / novela / BBB ou qualquer outra porcaria que sai das ondas de sinal. Nós lemos, nós sabemos inglês, nós temos opinião formada e ao contrário da massa, que é completamente manipulável, os jogadores não vão esquecer quem foram os gênios que fizeram esse projeto (in)produtivo.

Além de despreparado, nosso excelentissimo criador do projeto de lei (que eu não sei escrever o nome) e seus amigos que ajudaram a levar o projeto em frente fizeram um enorme desserviço quanto à interpretação da lei. O que raios são costumes em um pais pluricultural como o Brasil? O que raios são crenças, sendo que cada um pode acreditar no que quiser? Essa lei é tão falha quanto aquela outra sobre a internet, lembram? Não faz muito tempo mesmo.

Agora uma parte legal, legal mesmo, é que eles provavelmente não pensaram, em sua ânsia em criar uma lei tão deturpada como essa, é o quanto o mercado de jogos fatura. Eles provavelmente não sabem também o quanto vão perder de impostos (e que impostos, né?). Daí você tira o tamanho dos absurdos que você pode ficar sabendo.

Por falar em absurdo, acho que eu tenho que fazer as honras e avisar que esse ano tem eleição. Então já sabem que dessa vez todos precisam ser conscientes, tudo bem? Fazendo esse clichê necessário, eu me despeço de todos. Pelo menos, por enquanto não sou criminoso e nem foragido, então volto a aparecer em breve.

  • http://twitter.com/tristanccm Tristan.ccm

    Games violentos nunca vão deixar ninguém violento. Se fosse assim eu seria hoje um psicopata, de tanto que arranquei cabeças com o Sub-Zero.

    • Matts Neves

      Cara levando nessa lógica que assiste jogos mortais quer criar uma armadilha maligna para matar as pessoas?

      • T.S Filho

        eu mandei um e-mail para o tal senador sem trolagem, embora a vontade de mandá-lo realizar atos anatomicamente impossiveis com o próprio pênis fosse quase irreprimível. Provavelmente ele nem vai ler, mas o que vale é a intenção e se manifestar. 

        • MaryFarah

           Acho importante a gente se manifestar sim, pra o idiota lá saber que existe parte da “massa” que não é manipulável. Se podemos fazer algo, ‘infelizmente’ por hora é só isso. Depois é NÃO VOTAR NELE.

  • MaryFarah

    Eu comecei jogando DOOM no PC. Isso significa que eu posso pegar uma serra elétrica e sair matando gente… Ou então que eu vou sair dando cabeçadas em caixas pra pegar cogumelos mágicos e salvar princesas… Ou então, que eu posso pegar meu sabre de luz e sair cortando gente no meio, quero dizer, dando pancadas, porque posso fazer isso no SW Battlefront II. Alguém tem que levar a culpa e aí… Sobra pros jogos.
    Ver a educação que o melliante teve e FALTA DE ATENÇÃO dos pais, não rola né? Controlar o que seu filho assiste, joga e etc, é um bom começo. E não é ser radical, é orientar.

    • Matts Neves

      Eu vou equipar meu carro com metralhadoras e sair atirando. A pessoa que criou não sabe a diferença de uma pessoa que vive em um mundo de ilusão (disturbios mentais) e uma pessoa normal. Essas pessoas com disturbio tem tendencia a ser influenciada por qualquer coisa com vendo um filme do super homem ela tenta pular e sair voando igual no filme.

      Pessoas normais tem bastante noção do que fazem / deixam de fazer. Tem completa noção das consequencias das suas ações. Agora desculpa culpar os jogos é a mesma coisa que culpar o culpar o carvão pela morte da vaca.

  • Purishira

    É um absurdo. Esse projeto de lei é um completo absurdo. É muito simplista querer colocar a culpa da violência nos jogos e isentar os pais e os outros vários problemas sociais (educação, saúde, pobreza). É a mesma coisa que fazem com o professor, querer que ele se responsabilize pela educação do aluno sendo que os pais dão total liberdade para os filhos e não os educam (não são todos, eu sei). 
    Por que não buscam pesquisas mais recentes e diferentes como da pedagoga, mestre e doutora Lynn Alves? 

    “Os jogos eletrônicos se constituem em espaços de aprendizagem nos quais os jogadores podem exercitar diferentes habilidades e vivenciar distintas emoções por possibilitarem a catarse de energia e/ou sentimentos que os angustia, mas a passagem para o cotidiano não é uma relação de causa e efeito, uma equação tão simples, isto é, jogos violentos = comportamentos violentos.”

    Aliás, por que não se empenham para melhorar a saúde, educação e tantos outros aspectos da sociedade?