“Jogos Vorazes” (The Hunger Games, no original), que estreou no final de semana nos cinemas brasileiros, é tido como um dos maiores sucessos de bilheteria nos EUA (arrecadou mais de US$ 150 em um fim de semana) e como a saga que vai “substituir” franquias como Crepúsculo ou Harry Potter. A comparação é, no mínimo, esdrúxula: o filme não é tão ruim quanto os dos vampiros que brilham no sol, mas também está longe do carisma do pessoal de Hogwarts. Jogos Vorazes é, mais uma vez, a prova de que o sucesso de um filme não significa, propriamente, que se trata de um bom produto.
O papo de “nova franquia adolescente” não é novo – e todos os filmes que surgiram com essa ideia falharam miseravelmente. Alguns exemplos claros são “Eragon”, um filme péssimo para um livro já de qualidade duvidosa, “A Bússola de Ouro”, com um filme horrendo para uma história incrível e, mais recentemente, “Percy Jackson e o Ladrão de Raios”, uma adaptação fraca para uma série um tanto quanto interessante. Não li o livro no qual Jogos Vorazes se baseia – escrito por Suzanne Collins – mas o fato é que, no cinema, a história não convence nem um pouco.
Num futuro, uma guerra separou o país de Panem em 12 Distritos. Todo ano, para evitar uma nova rebelião, são realizados os tais Jogos Vorazes, onde uma dupla de jovens – de 12 a 18 anos – de cada um dos distritos se enfrenta numa arena até a morte. Os jogos são um verdadeiro sucesso em todo o país, que assiste atentamente à morte dos adolescentes, numa espécie de “Big Brother” sangrento.
Em meio a isso, Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence) acaba se oferecendo para participar dos 74º Jogos Vorazes no lugar da irmã. Pelo Distrito 12, onde ela mora, é escolhido também Peeta Mellark (Josh Hutcherson). Ambos embarcam para a Capital, onde recebem um curto treinamento antes de partir para a arena montada e para o “mar de sangue” coletivo.
É perceptível, nesse enredo, inspirações em vários clássicos da literatura mundial, como “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, e “1984”, de George Orwell. No primeiro, a sociedade vive em castas – os melhores nas cidades, e os menos desenvolvidos, em espécies de reservas. Trazendo para o mundo de Jogos Vorazes, podemos dizer que os distritos são essas reservas. Já o conceito de 1984 é bastante conhecido: a sociedade como um todo é observada, fiscalizada, exatamente como os personagens do longa.
Mas nem isso torna o filme interessante. Roteiro e montagem são os principais defeitos da produção. A história, simples, foge de questionamentos éticos pertinentes aos temas abordados ao dar uma resolução fácil demais, simples demais, a todos os problemas dos personagens principais. A montagem não ajuda e deixa passar batido informações importantes ao espectador (afinal, onde raios acontecem os jogos? Que arena hi-tech é aquela? Como as coisas simplesmente “brotam” lá dentro?).
Além disso, o filme é de um didatismo nojento. Em certa altura do filme, Katniss encontra um enxame de vespas mortais. Eis que surge um personagem e explica que elas são venenosas e causam alucinações. Ela, obviamente, sofre do problema. Então surge, novamente, o personagem explicando o que aqueles bichos fazem. Sério: isso é duvidar da capacidade de compreensão do espectador.
Além disso, lá estão as ceninhas clássicas típicas de filmes baseados em livros para adolescentes, como o casal que se forma, primeiro por um interesse, depois por um sentimento real. Mas essa nem é a pior parte. É triste ver uma menina de 12 anos levar uma lança no peito e abrir um diálogo imenso com a protagonista, sendo que todos os demais personagens morrem com um simples golpe.
Na verdade, nem essa é a pior parte. Toda a primeira metade do filme é simplesmente vergonhosa e dá vontade de levantar e sair do cinema. Seja por atuações ridículas (como do sempre bom Stanley Tucci, que tem um personagem mequetrefe em mãos), seja pelo visual pobre e efeitos visuais mal feitos ou pelo figurino de mal gosto e horrendo que permeia toda a projeção, o filme só engrena na hora que a pancadaria rola solta – e depois cai num final simples e sem emoção alguma.
Num filme apagado, um nome salta à vista: Jennifer Lawrence. Ela já se mostrou ser uma ótima atriz em Inverno da Alma, no qual concorreu ao Oscar, e em X-Men: First Class. Em Jogos Vorazes, ela rouba a cena e leva – sozinha – o filme nas costas. Na realidade, é ela quem salva o filme do desastre total.
Simplesmente não dá para entender porque a crítica elogiou tanto Jogos Vorazes. É um filme que busca ser pretensioso, mas que é falho em quase tudo aquilo que se propõe. Um enredo que não chama a atenção, atuações fracas – fora a protagonista, efeitos visuais pobres e um didatismo e uma série de clichês que chegam a irritar. Deve arrecadar muito mais dinheiro e com certeza ganhar uma continuação, o que não significa que ele seja um bom filme. Não é.

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