Até o ano passado, eu não conhecia o diretor Michel Hazanavicius e olha que eu trabalho com cinema alternativo, mas isso não vem ao caso. O diretor ficou dois anos parado até o lançamento de seu último projeto, o longa O Artista, que é apontado como o ‘melhor filme de 2012′.
“O Artista” é um filme diferente de todos que estão concorrendo aos principais prêmios do cinema neste ano, a produção estrelada por Jean Dujardin, é muda e em preto-e-branco, ou seja, é um longa completamente diferente do que estamos acostumados. Se você disser que não é verdade, estará mentindo. Eu, pelo menos, até me lembro que o último filme mudo e em preto-e-branco que assisti foi “Tempos Modernos”, dirigido e estrelado por Charles Chaplin.
Não costumo ler sobre um filme cujo seu lançamento é bastante esperado por mim, mas fiz isso com O Artista, já que o drama – sim, o filme foi classificado como drama – me chamou a atenção completamente, por – ano auge da tecnologia, do 3D e etc. – ser um filme francês, em preto-e-branco e mudo.
Acredito que quando Michel Hazanavicius (diretor e roteirista) apresentou a ideia do que seria O Artista, deve ter recebido diversos ‘não’, visto ainda que o filme não fez tanto sucesso em seu país de origem, a França. Tanto que o indicado francês ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro foi “A Guerra Está Declarada”, sorte da equipe de O Artista, já que o filme está concorrendo ao Oscar de Melhor Filme e ainda em outras 9 categorias (incluindo Melhor Ator para Jean Dujardin e Melhor Direção).
A história de O Artista nos brinda com uma volta ao tempo. Somos levados à Hollywood dos anos 20, onde conhecemos George Valentin (brilhantemente interpretado por Jean Dujardin), que é uma das maiores estrelas do cinema mudo atual e sempre está acompanhado do seu cão da raça Jack Russel Terrier (que não foi convidado para a cerimônia do Oscar 2012, uma pena). A vida de George começa a mudar quando o cinema mudo cai em desuso e as falas começam a ganhar as salas de cinema. Orgulhoso, o ator prefere ficar sem fazer filmes a atuar com nova tecnologia.
Paralelo ao orgulho do grande George Valentin está Peppy Miller, personagem de Bérénice Bejo, uma fã e amiga do astro que – por sorte e ajuda do próprio – começa uma brilhante carreira no cinema. O efeito do surgimento do cinema falado é desastroso na vida do astro, enquanto sua amiga ganha notoriedade com essas mudanças.
Quanto mais contamos a história de O Artista, mais o filme parece um drama, porém, eu não o classificaria como tal gênero, já que a produção é um sopro de felicidade. É incrível como a simplicidade da história nos tira grandes sorrisos durante a projeção. A fotografia de O Artista é belíssima e ainda vem acompanhada de uma trilha sonora excepcional. Sem contar as referências aos contos de fadas ou dos filmes de James Bond e ainda as citações dos filmes que estão dentro do próprio filme, explico melhor isso. Quando a carreira de George Valentin está desmoronando, o ator decide continuar a estrelar filmes mudos, mesmo sem diretor e estúdios, e investe em seu próprio projeto, o filme “Tears of Love”, em que assina o roteiro, a direção, é o ator principal e ainda financia o projeto. A cena final de “Lágrimas de Amor” (em tradução literal) é perfeita para o momento em que o próprio criador está passando, a decadência. Tanto este filme, quanto os outros estrelados pelo astro, refletem o momento em que ele está vivendo, do estrelato à decadência.
Outro fator que me deixou de olhos brilhando durante a sessão foi o formato de tela do filme que, ao lado da história, nos transportou aos anos vinte, sendo apresentado no formato 4X3 (tela de cinema quadrada), mesmo formato que o filme “Fausto” de Alexander Sokurov, será lançado no Brasil. Lembrando que na época em que a história se passa, o cinema era muito similar a um teatro e os filmes eram apresentados quase com esse mesmo formato.
“O Artista” é um dos melhores filmes do ano não só por abusar de elementos que ninguém mais usa, como o preto-e-branco, mas por ser completamente bem feito. Os atores estão perfeitos, o roteiro é delicado, ao mesmo tempo em que é simples e redondo.
Muitos críticos estão apontando as indicações do filme no Oscar como uma “mudança na Academia”, ou usando o argumento “o cinema está se reinventando”, já eu – que não sou crítico – não concordo. O Artista está entre os melhores filmes do ano por que é um dos filmes mais bem feitos da atualidade, ou melhor, mais bem feitos dos últimos anos.
A sensação de “volta no tempo” é tão provocativa que eu desejei terminar minha sessão como terminavam nos anos 20: com uma salva de palmas.
Curiosidade: “O Artista” é um filme francês, mas foi rodado nos estúdios de Los Angeles, e as cartelas nas quais podemos ler os diálogos são todas escritas em inglês.















































