É inegável a qualidade de ‘A Era do Gelo’, lançado em 2002, primeiro filme a reunir a preguiça atrapalhada Sid, o mamute resmungão Manny e o tigre dentes de sabre convencido Diego. Com uma história bem simples, os diretores Chris Wedge e o brasileiro Carlos Saldanha nos apresentaram um filme engraçado, dramático e até emocionante, tudo em boas doses. O mesmo, infelizmente, não pode ser dito de ‘A Era do Gelo 4’ (Ice Age: Continental Drift), que chegou aos cinemas brasileiros no dia 29 de junho.
A saída de Saldanha do projeto – ele é apenas um produtor executivo, já que está dando prioridade à Rio 2 – e a entrada da dupla de diretores Steve Martino e Mike Thurmeier fez muito mal à franquia, que já não estava andando muito bem das pernas. O primeiro filme é excelente, mas ganhou uma continuação péssima e cheia de clichês. No terceiro filme, eles conseguiram dar a volta por cima e trazer um bom filme, com novos personagens carismáticos e um enredo interessante.
Nada disso se repete em ‘A Era do Gelo 4’. Uma série de novos personagens são apresentados, mas nenhum deles muda algo no filme, e se mostram “pesos mortos”, não ajudam no desenvolvimento da história e passaram longe da fila de distribuição de carisma. Fora, claro, os óbvios clichês, típicos em filmes que ganham muitas continuações. O novo filme mostra, portanto, que a série está saturada e perdeu a força que um dia já teve.
Na história, alguns anos se passaram desde o final de ‘A Era do Gelo 3’. Em meio ao derretimento das calotas polares, o esquilo Scrat acaba que, por um acidente, dividindo a Pangeia (supercontinente existente há milhões de anos). Assim, ele dá origem aos continentes que hoje conhecemos. Com tudo vindo abaixo, os animais precisam encontram um lugar seguro para viver.
Em meio a problemas familiares, um acidente separa Sid, Diego e Manny dos demais animais – Manny sofre ainda mais, já que deixa Ellie e Amora para trás. Perdidos no mar, eles precisam arrumar um modo de voltar para casa. Mas não será tão fácil, já que perigos rondam o oceano, como o Capitão Entranha e seus piratas, que vai fazer de tudo para que a preguiça, o mamute e o tigre não retornem ao continente.
Infelizmente, os problemas se sobressaem aos méritos. O enredo, na verdade, é só uma desculpa para colocar o trio em perigo novamente. E, como falado, uma sequência incrível de clichês. Agora que Amora cresceu, o filme está repleto daquelas frases de efeito de como ela odeia o pai superprotetor, como quer impressionar um outro mamute macho e abandonar amigos, para fazer as pazes depois.
Ela, na verdade, ganha um destaque desnecessário na trama. Assim como outros mamutes e também sua mãe, Ellie. É incrível como conseguiram transformar ‘A Era do Gelo’ – basicamente um filme sobre animais solitários que se unem para sobreviver – em um filme bobo e superficial sobre “a importância da família”. Uma pena.
Mas nem a viagem de Sid, Diego e Manny escapa de problemas. Essas sequências são, de longe, muito melhores do que as “partes sentimentais”, mas como dito, também têm problemas sérios. Os novos personagens apresentados não emplacam. Entranha e os piratas não agregam nada – nem mesmo Shira, par romântico criada para Diego, empolga – e são responsáveis pelas piadas mais toscas – quem achou que ver uma foca procurando sua bunda seria algo engraçado?
Mas o problema maior atende pelo nome de Vovó. Simples assim. Alguém achou que colocar a avó de Sid na história, e pior, junto do trio na jornada principal, seria bom e engraçado. Não é. É uma personagem que usa e abusa de piadas cafonas e situações bizarras. Como disse lá em cima, a personagem sofre de falta de carisma – e não só ela, todos os novos personagens sofrem disso.
Eu até tenho uma teoria: o problema surgiu em ‘A Era do Gelo 2’. Se no primeiro filme o trio se uniu e formou seu bando, no segundo foram infelizes e criaram Ellie, um par romântico desnecessário para Manny. Agora, no andar da carruagem, os produtores e roteiristas não sabem o que fazer com eles. E a tendência é piorar. Não estranhe se no próximo filme (sim, com certeza terá mais um) Diego tiver um filhote e Sid uma namorada.
Ainda bem que Scrat está lá para não deixar o filme desmoronar de vez. As suas aventuras atrás das nozes são, sem medo de errar, as sequências mais engraçadas – mesmo que surreais, mas tudo bem, eu até entendo a licença poética. Mas, sério, não dá para entender como um filme cheio de florestas e até desertos ainda se chama “A Era do Gelo”.
O fato é que “A Era do Gelo 4” mostrou que a série se desenvolveu num rumo errado, e infelizmente, já dá sinais de cansaço. Claro, há piadas que rendem risadas, mas isso, porque o trio de protagonistas ainda mantêm suas características básicas e que se completam. Mas se você realmente gosta de Sid, Diego e Manny, pegue o DVD do primeiro filme e assista mais uma vez em casa. A ida ao cinema para “A Era do Gelo 4” pode te decepcionar. E muito.

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