O portal é um conceito bastante utilizado na ficção científica e na fantasia, tendo uma origem tecnológica ou mágica, interligando de forma geralmente instantânea dois pontos distantes no espaço e algumas vezes no tempo.
Os portais podem ser usados como passagem entre dois pontos num mesmo universo (um tipo de teletransporte), para passagem para mundos/universos paralelos, para viagens no tempo ao passado ou ao futuro, para passagem a outras dimensões ou planos de existência (céu, inferno ou outros planos) e o que mais a imaginação for capaz de criar.
Como muitos outros conceitos da ficção científica e da fantasia, os portais nasceram na literatura. O primeiro uso do termo/conceito que eu encontrei foi no conto Through Purple Cloud de Jack Williamson, publicado na revista Wonder Stories em 1931. No conto, o portal, formado por um círculo roxo, é usado para colonização de outros planetas.
Da mesma época é também o conto Wanderer of Infinity de Harl Vincent, publicado em 1933 na revista Astounding Stories. Nesse conto existe um dispositivo chamado Gateway criado por um cientista que abre uma passagem para outra dimensão.
O mestre Robert A. Heinlein no livro Um Túnel no Céu (Tunnel in the Sky) de 1955 descreve uma humanidade no futuro onde portais são o principal meio de colonização de outros planetas. Esses portais consomem muitos recursos e são abertos por pouco tempo, funcionam como passagem entre dois locais distantes vários anos-luz.
Em 1958, a escritora Alice Mary Norton, sob o pseudônimo de Andre Norton, publicou o livro Star Gate (algumas décadas antes do filme Stargate de 1994). Na complexa trama, que mistura fantasia e ficção científica, existe um dispositivo chamado Star Gate que abre uma passagem para um universo paralelo, em mais um exemplo de um portal criado por tecnologia.
Já avançando para a década de 80, o astrônomo, astrofísico, cosmólogo e também escritor Carl Sagan publicou o livro Contato (Contact) em 1985, posteriormente transformado em filme em 1997 com Jodie Foster no papel principal, onde um sinal extraterrestre é recebido na Terra ensinando a construir um complexo equipamento que permite a abertura de um portal (wormhole) para outro planeta distante.
Mais recentemente (ou não tanto assim), o escritor Dan Simmons na série de livros Hyperion Cantos (o primeiro livro Hyperion foi publicado pela primeira vez em 1989) criou o dispositivo Farcaster, uma rede de portais ligando vários mundos (ideia muito bem aproveitada no filme Stargate alguns anos depois).
O escritor Stephen Baxter, com base em uma sinopse de Arthur C. Clarke, publicou em 2000 o livro Light of Other Days que explora o desenvolvimento de tecnologia de portais para transmissão de informações instantâneas. A consequência imediata ó o fim da privacidade, já que qualquer local em qualquer época pode ser observado em detalhes. Nessa situação, o portal é usado apenas para tráfego de dados, não para transporte de pessoas e objetos.
Deixando a literatura, vou para meu tempo de criança. Um desenho que misturou muito fantasia e ficção científica e onde foram usados portais em diversas situações foi He-Man and the Masters of the Universe (1983–1985). Nesse desenho, a origem do portal poderia ser mágica ou tecnológica.
Outro desenho animado que fez uso de portais, em escala menor, foi Caverna do Dragão (Dungeons & Dragons, 1983) onde a forma de passagem entre o nosso mundo e o universo de fantasia do desenho era feita por portais criados por magia.
Na televisão, os primeiros exemplos de portais podem ter sido nos seriados Túnel do Tempo (The Time Tunnel, 1966–1967) e Star Trek (1966–1969), ambos da mesma época. Em Túnel do Tempo, uma máquina cria portais que permitem a dupla de protagonistas viajarem por diversas épocas do tempo (uma ou mais épocas em cada episódio). Já em Star Trek existe no episódio The City on the Edge of Forever de 1967 o Guardião da Eternidade, detentor de um dispositivo capaz de abrir uma passagem qualquer ponto do tempo em qualquer mundo do universo.
Alguns anos depois, em Buck Rogers no Século 25 (Buck Rogers in the 25th Century, 1979–1981) as viagens interestelares são realizadas através de uma rede de stargates.
Não se pode falar nos portais sem mencionar os seriados que fizeram deles parte principal da trama, e não apenas como um detalhe no enredo. O seriado Stargate SG-1 (1997–2007) e os posteriores Stargate: Atlantis (2004–2009) e SGU Stargate Universe (2009-2011) se passam num universo onde uma civilização antiga implantou uma gigantesca rede de portais (o dispositivo chamado Stargate dos títulos) em muitos planetas permitindo instantâneo deslocamento entre eles (no último seriado esse deslocamento é mais limitado). Esses seriados derivam do filme Stargate de 1994 onde é localizado enterrado no Egito um Stargate e onde pela primeira vez ele é utilizado para visitar outro planeta.
Outro seriado onde portais são usados para deslocamento espacial é Babylon 5, que usa um dispositivo chamado Jumpgate para abrir uma passagem para um hiperespaço. Nesse enredo, a viagem não é instantânea para outro local, mas uma viagem entre estrelas leva poucos dias. A origem do Jumpgate é desconhecida, mas as civilizações aprenderam a utilizá-los e em alguns casos, a criá-los, estudando os já existentes.
Tanto em Stargate, quanto em Babylon 5 e outros, a explicação para o funcionamento dos portais é a teoria do buraco da minhoca (wormhole) presente na física teórica onde dois pontos no universo podem estar interligados. Tal fenômeno nunca foi observado, mas é válido para cálculos de equações.
Uma das tramas do seriado Fringe (2008-2012) é o universo paralelo, onde em determinado ponto da série as pessoas dos dois universos podem facilmente trafegar de um para o outro através de um portal (a passagem é semelhante a um corredor pequeno com portas automáticas dos dois lados). A mesma possibilidade de viagem a universos paralelos através de portais é mostrada no seriado Sliders (1995–2000).
Nos filmes, além do já bastante citado Stargate, há o cult Nimitz – De Volta ao Inferno (The Final Countdown, 1980) onde todo um porta-aviões retorna no tempo de 1980 para 1941 antes do ataque a Pearl Harbor (evento que oficialmente colocou os EUA na segunda guerra mundial).
Um ano antes, um buraco negro foi usado como passagem para outro local (ou outro universo, o filme não deixa claro) no filme O Buraco Negro (The Black Hole, 1979) produzido pela Disney (primeira vez onde cenas de morte humana são mostradas em uma produção da Disney). Nessa situação o portal (buraco negro) é um fenômeno natural e não foi criado artificialmente.
No filme Perdidos no Espaço (Lost in Space, 1998) uma nave espacial parte em velocidade normal para uma estrela próxima (uma viagem de dez anos), a fim de construir um portal que será utilizado para a passagem instantânea de pessoas entre os dois planetas (a Terra está morrendo com falta de recursos).
No filme Hellboy (2004), baseado em histórias em quadrinhos de mesmo nome, o personagem principal é uma criatura que chegou de outro plano (Inferno) através de um portal aberto temporariamente que pretendia trazer o fim do mundo a Terra.
Em 2009, o filme Star Trek (direção de JJ Abrams) tem uma substância chamada matéria vermelha que é usada para criar buracos negros artificiais (na prática, um grande portal onde pode passar uma nave estelar). O portal permite que duas naves do futuro (Spock e Nero) retornem no tempo.
Recentemente, no filme Transformers: O Lado Oculto da Lua (Transformers: Dark of the Moon, 2011) uma tecnologia de teletransporte pretende abrir um portal para trazer outro planeta (Cybertron) para próximo da Terra.
Outros portais podem ainda ser encontrados em HQs e em games, mas deixo essas mídias para outra oportunidade.
Embora os portais ainda serão por muito tempo (ou talvez para sempre) apenas um assunto da ficção científica e da fantasia, é um recurso bastante usado em muitas histórias e em diferentes mídias.
Afinal, o que imaginaria Pedro Álvares Cabral, após meses em uma caravela, se alguém lhe dissesse que poderia num futuro de menos de 500 anos atravessar o oceano (Europa para América do Sul) em algumas horas?

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