Novo sistema portátil da Sony não sobrevive às expectativas. Entenda o que pode estar acontecendo.
Você está na expectativa de comprar aquele novo sistema portátil, que foi mostrado há meses, gerou o maior burburinho na imprensa. Seus amigos só falam dele e você ajuda a manter o assunto em pauta, seja no facebook ou ainda nos corredores do trabalho (a gente sempre encontra mais pessoas que gostam de games onde menos imaginamos, não?)
Após um lançamento falho e cheio de problemas, o Nintendo 3DS perdeu os holofotes para o que a Sony chamou de sua nova geração de sistema de bolso, o PS Vita. Ignorando o nome mais ridículo que um videogame já recebeu, o Vita prometia (mais uma vez) gráficos poderosos, diversas maneiras de interatividade, incorporando elementos de celular e redes 3G ao sistema. Com uma apresentação de peso na última feira E3, com trailers extremamente bem editados, visando aquele público onde quanto mais se explode, mais legal tudo fica (nunca subestimem o poder de um vídeo – exemplo? Uncharted 3). Era o pedido de desculpas perfeito pela patifaria da Sony com a PSN, se lembram? Já esqueceram, né? Mais uma vez, não subestimem o poder dos trailers.
O lançamento do badalado Vita ainda ia demorar, mas os críticos estavam de olho nos preços. A Sony, de olho no comportamento dos primeiros meses do 3DS. Enquanto o sistema da Nintendo foi muito bem apresentado na mesma feira E3 um ano antes, o feedback do público não foi o mesmo. O motivo? Vários. A Nintendo entregou um sistema às pressas, incompleto, para fechar o ano fiscal com saldo mais que positivo. Acionistas mandam, claro. O board berra, o staff obedece. Resultados? Diversos títulos portados de console em portátil. Puxa, como é legal jogar Super Street Fighter IV na tela da mão e ainda em 3D, não é mesmo? Não, não é.
Alguém aqui compra um sistema de bolso pra jogar um game que é muito melhor numa tela grande, em som Dolby Digital, com imagem HD e que a grande diversão está em descer a mão no amigo ao lado, ambos na mesma tela, porém rindo da cara dele? Se possível, com mais pessoas perto assistindo e rindo também? Ninguém compraria o 3DS por Street Fighter. Mas você compraria por Nintendogs? Os casuais não compraram o mesmo jogo de novo, apenas com pelos saltando à tela. Pilotwings? O que é Pilotwings pra quem nasceu na geração PlayStation 2? Ou pra quem foi no embalo do Wii? E o preço, claro, o preço: U$ 250. Tudo errado.
Os ventos então sopravam pra Sony, que tinha Uncharted como seu carro-chefe para o debut do sistema. Sim, Uncharted! Eu me perguntava – “sério?! Uncharted?” Pensei… “mas não é o mesmo erro da Nintendo? O mesmo erro com o 3DS e Street Fighter 3D? Um jogo de console, uma experiência home alone, na palma da mão? Isso é o futuro dos jogos de bolso?”
Somemos a isso os celulares, a guerra Android e iOS.
Eles fazem barulho, mas acredite: não vão engolir o mercado dos videogames de bolso.
Quem joga game portátil de verdade, acompanha a indústria, é diferente daquele amigo do trabalho que baixou Angry Birds ou aquele jogo de carro genérico da Volkswagem com “olha-esses-gráficos” pro Android dele. Esquece. São valores diferentes. O que talvez haja confusão é: será que realmente todos os jogos que a Nintendo estava lançando nos primeiros meses de vida do sistema valiam seus U$40? A Sony estava observando esse movimento?
Após o que pode ter sido mais uma revolta de acionistas dentro da Nintendo, a japonesa em uma atitude inédita corta o preço do sistema drasticamente. O efeito surge nas vendas, que vieram acompanhadas de Star Fox 64 3D e Zelda: Ocarina of Time 3D, dois clássicos de Nintendo 64 brilhantemente refeitos do zero, mas será que eram ideais? Eu adoro ter os dois games no meu bolso, mas não compro um sistema portátil pra jogá-los. São, mais uma vez, experiências de console. E a Nintendo sabe disso. Não preciso nem comentar sobre aquele Circle Pad extra que ela vai enfiar no portátil, não? Ridículo. Tanto que ela mesma parou de divulgá-lo e, no fim, mostrou-se algo pouco necessário – veremos os próximos meses quando novos jogos forem utilizar do acessório, como Metal Gear e Resident Evil (ops, mais uma vez, jogos de console).
A Sony observou com cuidado todas essas manobras. Pensando também no efeito do preço, cortou a memória do sistema pela metade e introduziu cartões magnéticos para esses saves futuros, sejam dados ou downloads de sua loja virtual, a PSN (aquela, hackeada).
Chegava o Natal japonês e a Sony estava pronta para soltar o primeiro carregamento de PSV na terra amarela. Depois de tantos problemas com o portátil da Nintendo, a casa de Super Mario estava com o nome sujo no mercado de portáteis. Mais sujo que o normal, já que ela sempre foi tida como a magnata dos jogos de bolso. Porém, duas coisas parecem ter mudado o percurso e afundado o lançamento do Vita como concreto em água: Super Mario 3D Land. E Mario Kart 7.
No fim, dá na mesma. O velho encanador surgiu com dois lançamentos que vendem como água. Mas deixe seu preconceito de lado. Por trás dos dois títulos, há a filosofia da Nintendo empregada em seus jogos portáteis com um certo frescor desse novo século. Primeiro: jogos portáteis são diferentes de games para consoles. Eles precisam divertir facilmente, podem ser interrompidos de maneira casual. Precisam carregar de maneira rápida, serem amigáveis, possuírem uma interface ágil e não amedrontar o jogador. Quando o consumidor se frustra com um portátil, ele desliga e passa pro amigo. Na hora, sem hesitar. E a Nintendo sabe disso.
Com Super Mario 3D Land, eles parecem ter encontrado o caminho de fazerem um Mario 3D que rivalize (em parte) com a popularidade dos games 2D. Simples, muito bonito, com trilhas memoráveis e controles facílimos. Além disso, transbordando conteúdo, seja pra quem joga 15 minutos diários ou mata aula completando 100%. A simplicidade portátil está lá, como nos anos 80, mas o frescor veio com um acabamento digno de sistema de mesa e conectividade criativa com o street pass. Entenda o que eu digo com acabamento de console, falo de maneira técnica. Enquanto iPhones e Androids impressionam o publico leigo com suas versões de jogos de corrida ou Dead Space portátil, a Nintendo sentiu que precisa manter a simplicidade sem se esquecer dos visuais.
O mesmo pra Mario Kart 7, que traz tudo muito bonito, em seu lugar, abusando dos speakers (e dos headphones) e com um modo online simples, ágil, muito fácil de jogar e acessar. Nota de rodapé? 60fps, sem slows, sem lag, de graça.
Os dois títulos, aliados ao efeito ‘corte de preço’, fizeram o 3DS voar das prateleiras. Somamos a isso a chegada de Monster Hunter 3 para o sistema em terras orientais, uma série extremamente popular por lá, que curiosamente nasceu no PSP.
O que sobrava pra Sony? Ah sim, Uncharted. Mas Uncharted não vende consoles nem nos EUA, no Japão ele mal é reconhecido. Então vamos apostar no fator debut, na novidade, no gadget que o Vita pretende se tornar. Resumo da ópera? Foi um desastre. Eles não estreou nem primeiro no Japão (algo que só havia acontecido na história do videogame oriental com os sistemas da Microsoft, o X-Box e o X360). Na segunda semana, estava à frente apenas – novamente – dos sistemas da cada de Bill Gates por lá. Enquanto o 3DS vendia em uma semana mais de 470 mil unidades, o Vita desovava só 70. Sinal vermelho na Sony.
Mas por que um desastre? Porque este seria o segundo erro da Sony na mesma geração que custa – e vai custar mais ainda – caro. O PS3 foi um chumbo no início, sem jogos e caríssimo. Aos poucos, com a popularidade do blu-ray (o grande objetivo da Sony com esse cavalo de Troia), a empresa resolveu voltar a investir no sistema. Remodelou, trocou a tipografia e até o nome do sistema – nada de PLAYSTATION, apesar de continuar sendo um – agora é PS3. Notaram isso? A gigante das TV’s viu que nomes curtos e simples estavam pegando. Na verdade ela queria pegar o Wii pela goela, mas enfim…
Não considero a entrada da Sony, com o PSP, no mercado dos portáteis um fracasso. Longe disso! O PSP vendeu mais de 70 milhões de unidades! É mais que o Xbox 360 e o PS3, os dois únicos sistemas HD da geração – para efeito comparativo, o Nintendo DS vendeu aproximadamente 150 milhões, igualando-se ao sucesso PS2.
Mas a Sony tem que enfrentar um 3DS que hoje já conta com mais de 10 milhões de unidades vendidas em menos de um ano.
No Japão, o 3DS já bateu a base instalada do GameCube durante seus cinco anos de vida (4 milhões) e nos EUA, vendeu mais que o Wii, o líder da geração e sistema de vendagem mais rápida da história até então, no mesmo período (mais 4 milhões). Não há dados Europeus.
Mas, você, leitor, pode se questionar “carambolas, mas esse Lucas só fala de números!” Acredite, os números são importantes.
Enquanto um sistema não se provar vendável, produtoras de calibre não vão produzir – pelo menos seus maiores – jogos para ele. Um exemplo disso já? Monster Hunter 4 para 3DS.
Eu adoro Uncharted, tenho todos de PS3 (o terceiro, por sinal, puro hype, é o mais fraco da trilogia), mas não é um game que vende portátil, que redefine uma experiência de bolso. O que faz um sistema ser diferente são suas experiências únicas e há várias permitidas apenas nos videogames de bolso. Pokémon é a mais eterna delas. Nintendogs foi um marco – mesmo que passageiro. E Mario, claro, provou-se mais uma vez ser imbatível e versátil.
Espero mesmo que o Vita surja com jogos melhores e que respeitem seus compradores. A Sony precisa entender que não está vendendo um celular, mas sim um sistema de videogame. Não interessa que ele rode filmes, tenha loja virtual, plante bananeira. O 3DS também faz quase todas as mesmas coisas – e em 3D, o que também provou-se ser perfumaria sem que haja uso inteligente, vide Mario 3D Land e Kart 7 – com exceção de um hardware (dessa vez) pouco inferior e não possuir 3G, mas vendeu e vende mais pelo motivo de sempre: jogos. O PSP já fazia 1001 malabares contra o DS convencional (“nossa, olha! O portátil da Sony é um Play 2 de bolso e roda filmes em disquinhos!”) e todo mundo viu o que aconteceu. Eles disputam o mesmo espaço nas lojas e a mesma preciosidade dos consumidores: as prateleiras de games novos e o tempo livre do consumidor.




















































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