De uns anos para cá, o cinema nacional tem crescido muito em produção. E nesse mesmo tempo, parece que os brasileiros aprenderam a assistir os filmes tupiniquins nas telas dos cinemas. No ano passado, por exemplo, O Homem do Futuro, Cilada.Com, De Pernas Pro Ar, entre outros, atraíram milhões de pessoas aos cinemas. Mas, para a maioria dos espectadores, as produções pareciam sempre parecidas: ou comédias de gosto duvidoso, ou aqueles “filmes-favela”, que muita gente não gosta.
Justamente por inovar nessa questão de gêneros produzidos no Brasil, 2 Coelhos é uma grata surpresa. As referências de Afonso Poyart em seu primeiro longa – o cara tem futuro, por isso, anotem esse nome – são evidentes no decorrer da projeção: de Quentin Tarantino à Zack Snyder, passando por filmes como Kick-Ass: Quebrando Tudo, Super, Scott Pilgrim Contra o Mundo e até mesmo Sucker Punch – Mundo Surreal. Mas dá pra resumir com uma frase: é o filme mais geek que o cinema nacional já viu.
A história gira em torno de Edgar (Fernando Alves Pinto, que também protagonizou Nosso Lar), que após um acidente, vai morar nos Estados Unidos por dois anos. Ao voltar ao Brasil, é assaltado e tem seu Iphone roubado. Isso desencadeia em Edgar uma vontade absurda de fazer justiça com as próprias mãos.
Paralelamente, o traficante Maicon (o ótimo Marat Descartes, de Trabalhar Cansa), se vê em problemas após uma ação que deu errado. Ele precisa da ajuda do deputado federal Jader (Roberto Marchese), e do advogado Henrique (Neco Villas Lobos) e da promotora Julia (Alessandra Negrini), para se safar da cadeia. O destino – ou um golpe – vai se encarregar de unir essas duas histórias.
Além de dirigir o filme, Afonso Poyart também é responsável pelo roteiro – muito bom, por sinal – de 2 Coelhos. O enredo do longa é contado de maneira não-linear. Isso quer dizer que, muitas vezes, você simplesmente não vai entender como Edgar possui tantas informações privilegiadas ou como ele sabe tanto sobre os demais personagens. Esse é um dos pontos positivos da produção: ao final da projeção, o espectador tem todas as peças e já pode montar o quebra cabeça proposto por Poyart.
Mas difícil falar de 2 Coelhos sem citar seu visual deslumbrante e único. Cheio de referências a filmes cultuados – como Kill Bill, Scott Pilgrim Contra o Mundo, Kick Ass – Quebrando Tudo ou Sucker Punch – Mundo Surreal – o longa apresenta uma verdadeira overdose de efeitos especiais, e o melhor, todos eles muito bem produzidos e com um propósito específico. Se até agora ‘Nosso Lar’ era o filme com maior utilização de recursos visuais no cinema nacional, 2 Coelhos toma esse posto com louvor – e com muito mais qualidade.
Em certa sequência, por exemplo, Julia empunha uma espada e trucida “seres” produzidos em computação gráfica – tanto os movimentos a lá Noiva (de Kill Bill) ou os efeitos especiais (que lembram o já citado Sucker Punch) são impecáveis. Claro, nada que nós já não tenhamos visto em filmes hollywoodianos, mas uma verdadeira revolução para o cinema brasileiro.
Outro exemplo é a primeira cena de 2 Coelhos. Uma mulher e uma criança caminham em câmera lenta, numa rua iluminada com luzes supercoloridas, em direção ao espectador. Ao mesmo tempo, a incrível “Kings and Queens”, da banda 30 Seconds to Mars começa a tocar. A música para, a câmera acelera e um carro atropela a mulher e a criança, tudo numa fração de segundos. Zack Snyder não faria melhor.
Já que citamos a música, a trilha sonora do filme também é competente. Assinada por André Abujamra, ela vai da citada “Kings and Queens” (que também faz parte da trilha sonora do filme ‘A Lenda dos Guardiões’), até o hit “Sou Foda”, de Os Avassaladores, passando aí até mesmo por canções da MPB. As músicas ajudam ainda mais o espectador a mergulhar na história proposta.
Os atores também estão ótimos, com destaque aí para três em específico: o protagonista Fernando Alves Pinto, que se mostra um bom nome para o cinema nacional; Alessandra Negrini, muito à vontade na pele da promotora Julia; e o impecável Marat Descartes, o icônico traficante Maicon, responsável muitas vezes pelos alívios cômicos do longa, graças à sua trupe de bandidos (a cena da espada na favela é impagável).
Unindo referências do mundo pop – filmes, quadrinhos e games – Afonso Poyart escreveu um roteiro inteligente, cheio de reviravoltas e complexo, algo bastante raro nos longas nacionais. Juntando à boa história um elenco competente e um visual que é um primor, temos um dos filmes mais revolucionários do cinema brasileiro e que pode abrir novas portas para futuros diretores.
Um salve a Afonso Poyart, que se mostrou – em seu primeiro filme – um roteirista inteligente e um diretor sem medos com um orçamento relativamente baixo (o filme custou algo em torno de R$ 3,5 milhões). Uma pena que o preconceito do público brasileiro com suas próprias produções ainda seja forte. Se esse filme fosse gringo e se chamasse “Two Rabbits”, com certeza seria melhor recebido pelo público e não passaria despercebido.

















































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